Director: Carlos Morais José
 

--- 24-03-2006 ---
Há coisas que se fazem aqui que não lembram ao diabo!
Collage Europa
Visões do mundo
A Doutrina do Meio, Parte IV





Miguel Senna Fernandes, encenador e dramaturgo de “Vila Paraíso”

Há coisas que se fazem aqui que não lembram ao diabo!

É um discurso de resistência e antagonismo sem ser de desafio directo à autoridade. “Vila Paraíso” enuncia o crescente mau-estar entre a população de Macau que os Doçi Papiáçam, este fim de semana, encenam no Centro Cultural.


Carlos Picassinos

É um teatro político, um burlesco ácido que atravessa “Vila Paraíso”, a mais recente produção, em patuá, que a companhia de teatro Dóci Papiáçam di Macau leva à cena do Grande auditório do Centro Cultural de Macau. Embora recuse falar em teatro de intervenção ou de ressentimento, nesta entrevista ao Hoje Macau, Miguel Senna Fernandes, dramaturgo e encenador, expoente da aristocracia macaense, formaliza um dos raros discursos políticos de antagonismo e resistência cultural à estratégia de crescimento da cidade. Alerta para a perda de referências, estilos de vida, e dos espaços em benefício de “aberrações”. Os casinos são bem vindos mas aqui não é Las Vegas, avisa. O factor cultural é importantíssimo. E assim vai a vida na Vila Paraíso.

Que vila é esta, Miguel Senna Fernandes?
É uma vila que não existe, que é pura ficção, basicamente concebida para este efeito. É um edifício com vários residentes construído nos anos cinquenta, em que havia uma grande uniformidade cultural de famílias e residentes. Mas Macau mudou e agora tudo na cidade foi afectado. Os costumes, os hábitos… e por isso a vila também não pode ficar fechada num compartimento estanque. A acção situa-se nos anos noventa, já com pessoas de backgrounds culturais diferentes, macaenses, chineses, portugueses da República. Agora as pessoas vivem umas entre as outras. Quero dizer, não há guetos. Há uma mescla de gente. Nos anos noventa, houve várias etnias e grupos de diferente base cultural que chegaram à cidade, que vivem no mesmo bloco habitacional, que coexistem ao mesmo tempo. Ora, nesta Vila Paraíso, desde os anos cinquenta nunca mais houve embelezamento. As pessoas também já não são as mesmas. Dantes, esmeravam-se por embelezar a casa, mas hoje perdida esta identificação, acabam por abandonara a vila que foi entregue a um abandono irreversível. É um entre vários blocos a cair aos bocados. Tudo se queixa da situação e todos querem ir embora. Mas, eis que, a certa altura, se dá uma reviravolta! Um certo dia aparece um indivíduo do continente que quer comprar a Vila Paraíso para outros fins – quer ali fazer um karaoke, um banho sauna, ou mesmo um casino. Perante esta situação, todos questionam a legitimidade dessa pessoa, sem história, que aparece ali a querer comprar a Vila Paraíso. No fundo, queremos chamar a atenção para este sentimento de pertença que nos liga a determinados sítios. As pessoas queixam-se sempre dos sítios onde estão mas, no fundo, nunca saem dali, porque aquele é o seu lar. E o lado interessante é que na Vila Paraíso vivem pessoas de diferentes origens que apelam a este mesmo sentimento. Vila Paraíso é Macau. Todos os dias se critica esta terra, todos dizem que se pudessem emigravam. Mas não emigram. Porque Macau é uma vila e é um paraíso. É uma vila com a complexidade de uma cidade ou uma cidade com a mentalidade de vila. As pessoas vivem aqui em grandes contradições e isso é que faz o pitoresco de Macau. A peça retrata, no fundo, esta visão que tenho sobre Macau. É claro que em duas horas não se pode dizer tudo…

O que é que faltou dizer…
Bem, é que há sempre tanto para dizer, é incontável. As alegrias, as tragédias de um cidade… mas não é esse o ponto da peça. Decidimos utilizar o humor, o “non sense”, que dá aquela personalidade à peça. Há dois elementos que gostaria de realçar, e não por esta ordem de primazia. O primeiro é a coexistência, o espírito de coexistência que aqui se vive. Há pessoas que me dizem: ‘bem em Hong Kong existe o mesmo espírito”. Em Hong Kong, as coisas são completamente diferentes. As comunidades autóctones já quase desapareceram. E, depois, um segundo elemento, é este sentimento de pertença. É importante sentirmo-nos pertences deste lugar.

É um teatro de intervenção?
Não chego a classificá-lo como teatro de intervenção porque não se trata de uma tomada de posição clara para que se faça o que quer que seja. É um teatro de constatação de factos. Dirige-se ao comum dos cidadãos, nem sequer é à autoridade. Nem sequer é de poder que aqui se fala. É da faceta mais humana de cada cidade. Existe um espaço comum: respeitemo-nos!

Fala como macaense…
Não há aqui qualquer xenofobia, nenhum chauvinismo. Mas há que ter cuidado… porque se tem que pensar o melhor para Macau. Esta é uma condição sine qua non… Não importa se sou português, macaense, chinês, ou o que seja. Eu tenho que me sentir em casa! Sou pertencente a este espaço. Só assim posso dar corpo a qualquer contributo e colaboração à cidade. Este sentimento é que tem de ser inculcado na população. É verdade que Macau abriu as suas portas, existem muitos turistas a visitar-nos, as ruas estão invadidas mas há que parar para pensar. Repare que eu não estou contra o turismo ou contra os casinos. Mas é preciso que Macau não perca os elementos que a caracterizam, que a identificam, e é importante não despojar a cidade dessa sua faceta. Por exemplo, o Governo anunciou a recuperação dos bairros antigos, do bairro chinês de San Kio, o que é fenomenal, mas também há que apontar o dedo a aberrações. Há coisas que se fazem aqui e que não lembram ao diabo! E isto afecta a imagem da cidade. É preciso chamar a atenção para isso. Quando se brinca com a imagem é preciso ter cuidado. Não estou a falar da arquitectura portuguesa, ou que seja, não é isso! Estou a falar da arquitectura, em geral, por exemplo.

Mas não há aí uma contradição entre a defesa da cidade aberta e o cepticismo acerca dos investimentos dos americanos, em particular?
Não sou contra os casinos. Podem vir à vontade e investir com toda a pujança. Outra coisa é tornar Macau qualquer coisa que não tem nada a ver consigo próprio. A começar pela arquitectura… Vamos ser realistas! Uma coisa é o investimento americano, outra coisa é fazer aqui outra Las Vegas, que está lá muito bem onde está. Não se pode transportar, e incorporar à força, Las Vegas em Macau. Ainda estamos no início deste processo, as obras ainda estão em curso no Cotai, mas vão provocar profundas alterações no estilo de vida. Embora esta seja uma peça de humor, por detrás encontramos várias mensagens.

Revela também uma outra forma de crise entre os macaenses?
A comunidade macaense sempre se debateu com esta crise de identidade. Em tempos idos, o macaense foi sempre obrigado a sair porque aqui não havia condições. A tal diáspora surge porque não havia condições para ficar em Macau. Os macaenses eram funcionalmente intermediários entre os chineses e portugueses. Depois da transferência, estas funções mudam. As coisas mudaram! Não há dramatismos. Existe um problema de identidade mas a comunidade tem grande adaptabilidade. Aos macaenses não lhes resta referência nenhuma, só Macau, o espaço e as vivências. Os macaenses mantêm aquela capacidade de se misturar entre as comunidades.

Houve um perda de poder.
Nitidamente! As famílias macaenses até à II Guerra Mundial detinham grande parte do poder e influência em Macau. Depois houve uma quebra nítida. Perderam força. O grosso da comunidade macaense concentrou-se depois na Função Pública, até ao Handover. A seguir a isso, a administração é outra e tudo é diferente. Verificou-se uma modificação em termos de poder e há que entender isso com cautela. O macaense hoje joga com outras regras. Continua a ser o “intermediário” e não consegue ser substituído nesse papel. Por exemplo, no Fórum da Lusofonia, e nas relações com os PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa], encontramos envolvida grande parte da comunidade macaense. É que não é suficiente conhecer a língua a cem por cento para se conhecer o outro. O factor cultural é importantíssimo.

Não há ressentimento?
Ai daquela pessoa que sinta ressentimento! É claro que uma pessoa que esteja no alto não gosta de descer. Isso é humano. Mas há que ter o sentido de fair-play. As coisas mudaram e isso aceita-se… mas, repito, é fácil ao macaense adaptar-se. Houve gente que se ressentiu e saiu. É uma inevitabilidade destas coisas. Mas há que se adaptar aos tempos. E, além disso, há muita gente a regressar.

O uso do patuá é um sintoma de resistência?
É para marcar a diferença, de forma clara, e para dizer que está para ficar. O macaense é um indivíduo humorístico. E o patuá é tão brejeiro que é quase impossível fazer qualquer coisa dramática. Bem, um dia ainda poderia fazer o “Amor de Perdição”, mas o patuá não é propenso ao drama. Mas é legítimo fazer drama.


XVII Festival de Artes de Macau
“Vila Paraíso” – Teatro em Patuá
Grupo de Teatro Dóci Papiácam di Macau
Centro Cultural de Macau
25/3 (Sábado) às 20 horas
26/3 (Domingo) às 15 e 20 horas
Bilhetes 60 a 100 MOP
Lotação esgotada nas sessões nocturnas
Bilhetes disponíveis para a matinée de domingo