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| XVII. O Homem do Leme |
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NO FUNDO DO HORIZONTE: Sozinho na noite um barco ruma para onde vai. Uma luz no escuro brilha a direito, ofusca as demais. E mais que uma onda, mais que uma maré... tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé... mas, vogando a vontade, rompendo a saudade, vai quem já nada teme, vai o Homem do Leme. E uma vontade de rir nasceu do fundo do ser. E uma vontade de ir, correr o mundo e partir, a vida é sempre a abrir...
Não quero pensar que sou algum deus. Mas o que se passou a seguir bem que parecia o Céu. Sem anjos, sem milagres, sem autos-de-fé, sem purgatório. Sem Inferno. Era só um céu sem mais nada supérfluo. Simples. Um céu azul com nuvens brancas que flutuavam no horizonte. E cá em baixo a humanidade. A existência viva. A civilização. Cá em baixo, neste espaço finito, acabava de se construir uma nova abertura. Uma janela para esse céu que nos suportava.
Ainda me vejo com as mãos a segurar aquela enorme televisão de plasma, a transportá-la com esforço pelos corredores da Assembleia e a levá-la para o patamar mais alto da sua monumental escadaria, que nos esperava petrificada. Onde antes existiam vozes passou a ouvir-se o ar a passar de um lado para o outro, sem mais perturbações. O ar que se despejava na laringe e enchia os pulmões. Que subia depois pelas carótidas até ao cérebro e o inundava de vida. De mais tempo para brincar aos seres vivos.
As pessoas e toda a azáfama do dia-a-dia deram lugar ao silêncio e a um sem fim de estátuas. Estátuas de olhos brilhantes. Olhos arregalados. Um televisor era só o que eu trazia nos braços. Do outro lado daquela peça de artilharia o meu fiel companheiro. Que me sorria com os dentes todos. Se ainda não perceberam esta história é uma história de amor. Amor entre o Homem e a Máquina.
- Precisamos de electricidade, precisamos de ligar isto a uma corrente eléctrica e dar-lhe luz.
Eu ao contrário das palavras dele achava que só a imagem daquele aparelho chegava para mudar o mundo. Só a pose rectilínea, serena, cheia de calma, era suficiente para construir um novo futuro. Os botões ínfimos, o desenho estudado vezes sem conta em laboratório, a escolha dos materiais correctos, a cor, o vidro quase invisível. A marca e o modelo no tipo de letra certo. O logotipo mais destacado do que tudo o resto. E o brilho. Era o Céu, o verdadeiro, aquele que é sintonizado em todas as religiões mas que nunca tinha sido visto antes.
À nossa frente umas dezenas de bocas entreabertas, com um fio de baba de prazer contido.
- Não precisamos de ligar nada. Olha como eles estão. Não conseguiram reagir e agora não conseguem pensar. Não imaginavam que algum dia pudessem ver de novo um aparelho destes. Estão em completa êxtase. Se ligarmos a televisão agora vão explodir para cima de nós. É preciso ter muito cuidado.
Tudo isto me faz lembrar a primeira vez que senti o meu corpo a mudar. Quando comecei a mudar de voz e a crescer para os lados. A barba a arranhar-me. Os pêlos a crescerem-me entre as pernas. A sair até às tantas, atrás das miúdas. Tudo isto me faz lembrar a primeira vez que me apaixonei. A descobrir o que era na verdade gostar de alguém. O que era derreter só por um olhar. Tudo isto me faz lembrar o começo da minha vida. Aquele grito de choro quando se nasce. O calor de um corpo maior. O manter-me acordado mais tempo e observar todas formas. Começar a andar. Começar a ler e a escrever. Tudo isto é uma evolução.
Há estátuas por todo o lado, estátuas que começam a dar as mãos e a subir as escadas pé ante pé, para junto de nós. Levitam no ar. O mesmo que lhes entope as traqueias. Nos automóveis que circulavam na rua há portas que se abrem. Portas que deitam figuras cá para fora e que começam a flutuar na nossa direcção.
- Não há perigo nenhum. Não vai acontecer nada. Fazemos parte do mesmo grupo, estamos todos do mesmo lado.
Eu sei o que me aconteceu em Nova Iorque, sei o que aconteceu naquele cinema quando o meu corpo mudou de vez. Eu ouvi o sangue a galopar na minha fronte. Senti toda a minha pele a virar-se ao contrário. E o desejo infinito de continuar a ver sempre o mesmo filme sem ter razão para isso. Foi tudo como um relâmpago, e acertou-me em cheio. Não conseguia perceber o que era aquilo, o de ficar viciado em cada imagem que passava. Eu sei como foi, sei como é. Não há nada igual. Sei que nunca mais vamos conseguir deixar este modo de vida, esta liberdade fácil de prazer avulso. E sei muito bem o que eles estão à espera. Eles querem continuar. Mas não querem ficar por aqui, não querem apenas uma televisão no cimo de umas escadas. Querem tudo e só há uma coisa a fazer. Criar uma rede.
- Eu sou o Homem do Leme! - grito-lhes do cimo do meu fôlego. - Quero que cada um de vocês vá buscar uma televisão igual a esta. Estão todas lá dentro ao fundo do corredor. Quero que as levem para bem longe, até onde conseguirem chegar. Até ao fim do mundo.
- E o que pomos lá dentro? - diz uma das estátuas, que se parte toda quando começa a falar. - Onde estão os filmes?
- Não há filmes! Ainda não há filmes. Existem apenas cabos. Quero que os levem, que os multipliquem, e quero que os liguem todos a cada televisor?
- E os satélites? Onde estão os satélites? Não é mais fácil se tivermos satélites? Antenas? Emissões em directo? Onde estão as séries, os desenhos animados?
- Não existem! - esta é a voz do meu companheiro que percebe tão bem como eu o que há a fazer.
O que é preciso fazer é levar cada aparelho para bem longe, todos eles ligados entre si de maneira segura. Por um fio. Depois arranjar uma emissão única. Passar a história toda de novo. A história do cinema, a história da televisão limpa de todo o lixo. Instruir a humanidade a viver melhor. A criar. A inspirá-la. A dar-lhe uma nova forma. Torná-la ampla. Ampla de interesses e de gostos. Hábil, segura e delicada. Grande. Tornar a humanidade enorme. Dar-lhe um céu azul com nuvens brancas que flutuem no horizonte. Como este que está agora por cima de nós.
É isso que é preciso fazer. Criar uma existência viva sem baixar os braços. Sem dizer apenas que sim e encolher os ombros ao mesmo tempo. Entrar na linha e seguir a ordem. Há mundos a criar, a erguer, cheios de coisas novas.
Uma das estátuas chega-se ao pé de mim com má cara e tenta falar. Há uma outra que fala por ela, estão cada vez mais com a aparência de pessoas, menos petrificados.
- Nós não queremos nada disso. Não queremos inteligência, não queremos nenhum mundo novo. Queremos apenas este que temos. Este aqui que está dentro dessa televisão. Não precisamos de mais. Isso basta. Não precisamos de comer, não precisamos de dormir, não precisamos de mais nada. Queremos passar o resto da vida a olhar para esse ecrã. Tanto faz se está a dar um boneco animado ou o Frank Sinatra a meter-se com alguém. Não queremos cá coisas vivas. Pode ser um fóssil desde que apareça dentro de imagens em movimento. Tanto faz.
E a outra estátua que de repente está em carne viva como eu: - E que história é essa do Homem do Leme? Aqui não há homens do leme, deixa de ser ingénuo. Aqui existem apenas telespectadores! É disso que o mundo é feito. Mais nada!
NADA MAIS: Mares convulsos, ressacas estranhas. Cruzam-te a alma de verde escuro. As ondas que te empurram. As vagas que te esmagam. Contra tudo lutas. Contra tudo falhas. Todas as tuas explosões. Redundam em silêncio. Nada me diz. Berras às bestas. Que te sufocam.
Em braços viscosos. Cheios de pavor. Esse frio surdo. O frio que te envolve. Nasce na fonte. Na fonte da dor. Remar remar. Força a corrente. Ao mar, ao mar. Que mata a gente |
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