Director: Carlos Morais José
 

--- 19-05-2006 ---
E mais nada
Uma escolha entre o nada
A vergonha da França
XVII. O Homem do Leme






Uma escolha entre o nada

O segundo mandato do Chefe do Executivo da RAEM chega a meio na altura em que ocorre o maior protesto de massas desde que, em Junho de 1989, Macau também saiu à rua em solidariedade para com as vítimas dos confrontos de 4 de Junho. Agora, no Dia do Trabalhador, apenas o trabalho de mediação feito no terreno pelo deputado Ng Kuok Cheong e a supressão deliberada de alguns manifestantes por parte da polícia impediram que a manifestação acabasse em confrontos de largas proporções entre a população e as forças de segurança. É que, por mais que determinados sectores insistam no contrário, aquela manifestação, que levou cinco mil pessoas à rua, era apenas o reflexo do estado de espírito de uma parte considerável da população de Macau.
A grande manifestação do 1º de Maio foi o culminar de um processo de emergência de problemas que, em Macau, vinham a ser sentidos, mas também contornados. Depois de uma reunião com representantes do empresariado e dos trabalhadores, o director dos Serviços para os Assuntos Laborais, Shuen Ka Hung, disse à comunicação social que já havia sido encontrada uma direcção/orientação para lidar com os problemas dos trabalhadores importados e do trabalho ilegal. Esta pérola de intervenção sentimental e moral não passava, afinal, de uma mentira. E uma mentira dita à luz do dia. Neste mundo de hoje, nenhum Governo avança com políticas diferentes para a implementação de medidas concretas quando esse próprio Governo não faz a mínima ideia de qe rumo, orientação e sentido devem ser adoptados. Quer isto dizer que o Governo deve procurar saber quais os erros que cometeu apenas quando as coisas correm mal? Como é óbvio, é isto que acontece em Macau. É este género de Governo que nós temos. Por isso é que considero que aquilo que Shuen Ka Hung disse não é apenas uma piada, mas sim uma verdadeira tragédia para Macau.
Neste momento, o que importa saber é por que é que Macau tem este tipo de Governo.
Antes da transferência de poderes, o território era administrado por portugueses que trabalhavam para um Governo colonial. Depois dos incidentes do 3 de Dezembro, o Partido Nacionalista (Kuomintang) retirou-se enquanto poder de Macau, ao mesmo tempo que o poder da Igreja deixava de ser tão preponderante como no passado. Em substituição, as associações tradicionais começaram a ganhar grande popularidade junto das pessoa,s dada a sua adesão público aos valores patrióticos e, nalguns casos, ao patriotismo puro e duro. Desde então, o Governo português acostumou-se a dialogar com as associações tradicionais chinesas quando era necessário implementar algumas políticas ou quando desejava adoptar algumas medidas que iam mexer directamente com a vida das pessoas. É por isso que o povo, as gentes de Macau, apelidavam estas conversas de “políticas negociáveis.” Entre estas associações tradicionais chinesas, aquelas que eram lideradas pelas famílias Ma, Ho e Chui eram as mais representativas. Estas “políticas negociáveis” caíam que nem uma luva no modelo de relação existente entre as chamadas elites locais e as autoridades governamentais. No fundo, porém, tratava-se de uma outra forma de sobrevivência do poder feudal local.
Sob este ambiente político conservador e fechado, o Governo português não tentou mudar o que quer que fosse na forma como as coisas se faziam, nem mesmo depois do 25 de Abril em Lisboa. No plano de descolonização do Estado Português, Macau aparecia como algo que, de facto, seria um dia devolvido à China. Os portugueses não pensaram no futuro de Macau com esforço suficiente e, como consequência, não formaram absolutamente ninguém de etnia chinesa a quem a administração de Macau pudesse vir a ser entregue no futuro.
Quando se aperceberam da situação que estavam a criar, já era tarde. Se não o haviam feito ao longo de quatrocentos anos, como é que o iriam fazer à última da hora? A China, por seu lado, também não iria concordar com tal empreitada, de certeza absoluta. Ou seja, aquilo que os portugueses fizeram foi limitar-se a dar o seu melhor para preservar as características culturais portuguesas de Macau e apostar na construção de uma boa relação com a China.
A Educação que existia em Macau no tempo da administração colonial jamais iria criar talentos capazes de assumir a administração de um estado. Por isso, a única forma de garantir alguma tranquilidade era eleger alguém das associações chinesas para preencher os lugares-chave daquela que viria a ser a actual administração da RAEM.
Voltando um pouco atrás, depois do 3 de Dezembro era natural para as associações chinesas verem a Associação Comercial de Macau, liderada pelo Senhor Ho Yin, como a mais representativa de toda a sociedade, ao passo que as então recém-criadas Associação Geral dos Operários e União Geral das Associações de Moradores (Kai Fong) desempenhavam apenas papéis secundários, de apoio. A escolha de empresários para liderar o Governo de Macau já havia sido acertada há muito, muito, tempo. O futuro candidato a Chefe do Executivo de Macau iria assemelhar-se em tudo ao perfil escolhido pelo Governo Central para Hong Kong, ou seja Tung Chee-hwa, o filho do magnata do transporte marítimo Tung Chao Yung. Sendo o filho do Senhor Ho Yin, Edmund Ho não tinha o direito a optar. Edmund Ho começou a deixar de ter direito a optar em relação ao seu próprio futuro quando, em 1983, regressou a Macau para assumir a liderança dos negócios da família. Tudo era controlado pelo Governo Central e pelos grupos locais com interesses investidos. Sendo um porta-voz da administração e a 2ª geração de uma família de banqueiros, Edmund Ho nunca havia sido baptizado no meio político ou, sequer, exposto à política. Falta-lhe a amplitude de análise que um líder de Governo tem obrigatoriamente de ter. Apenas pode fazer uso das estratégias aplicadas nas associações, nas quais ele era, de facto, bom, e depende de um grupo de juniores do sector empresarial que partilham e bajulam as suas ideias e objectivos. Está ali para implementar as tarefas e missões que lhe foram conferidas pelo Partido e pelas associações. Em termos de candidaturas ao posto de Chefe de Executivo, esta foi uma escolha de entre a total ausência de hipóteses de escolha.
Se nós pensarmos na Administração de Macau como uma mera gestão de uma série de contas, então Edmund Ho conseguiu, de facto, atingir os objectivos ao fazê-lo criando uma sociedade que, superficialmente, tem sido estável e tem prosperado ao longo destes últimos seis anos. No entanto, os ousiders ao núcleo duro político e empresarial de Macau não têm forma de saber o quão caro isto poderá vir a revelar-se nem o quão grande tem sido o sacrifício que suporta este cenário de prosperidade. O ressentimento e insatisfação da sociedade têm-se acumulado de dia para dia e, neste momento, não há dúvidas de que uma série de crises escondidas estão por detrás do véu de beleza que cobre Macau.
O antigo primeiro-ministro chinês Zhu Rongji pediu, um certo dia, aos estudantes de uma faculdade de contabilidade para que não aldrabassem as contas. Mas a verdade é que todos os contabilistas sabem como aldrabar contas. Macau não tinha, antes da transição, pessoas capazes para, no futuro, governarem Macau. Macau limitou-se a designar um sucessor. O mesmo se passa, agora, após a transição. Não se encontram pessoas capazes de liderar uma administração, e as que o são não encontram lugar. Apenas os amigos ou simpatizantes do Governo têm lugar reservado e continuam a ser aceites.
O que é que levou as pessoas de Macau a perder o seu direito de escolha, de opção?
Foi o Governo português? Foi a China? Ou foram as próprias pessoas de Macau?