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--- 26-09-2006 ---
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Para além do Fórum





Seminário: Académicos discutiram relações da China com África

Para além do Fórum
José Carlos Matias --

“Em três anos, o Fórum já fez mais pelos países lusófonos do que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa em dez”, começou por dizer Narana Coissoró, professor do Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade Técnica de Lisboa, ontem, num seminário organizado pelo Instituto Internacional de Macau.
O debate era sobre “Cooperação China-África e a plataforma de Macau”, mas a discussão acabou por se encaminhar mais para a relação entre o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (FCECCPLP), cuja reunião ministerial terminou ontem em Macau, e a CPLP.
Heitor Romana, também professor no ISCSP, sublinhou o facto curioso de ter sido um actor externo – a China – a dar esta nova dinâmica e importância no plano internacional aos países de língua portuguesa. No entanto, o investigador recusa a ideia de que o Fórum venha a colocar em causa a CPLP, uma vez que são duas realidades bem distintas:”Não partilho a tese segundo a qual o aparecimento deste Fórum ponha em causa a CPLP. O que acontece é que neste processo existe um mínimo denominador comum entre todos os participantes que passa pela vontade de reforçar as relações com a China”.

O Fórum como “shopping center”

O FCECCPLP aparece como uma realidade original no contexto das relações internacionais. Original e difícil de identificar, como disse Narana Coissoró que o comparou, em termos de dificuldade em classificar esta organização, à União Europeia: “Trata-se de um OPNI - Objecto Político Não Identificável”. Presente na assistência, o secretário-executivo-adjunto da CPLP, Tadeu Soares, rejeita ver o fórum como um substituto da comunidade de países criada há dez anos. “A CPLP foi a materialização de um sentimento já existente”, afirmou. Quanto ao Fórum, Tadeu Soares considera que “é como um shopping center onde a China pode ir de loja em loja falando com os ministros dos países lusófonos”.
Mas afinal o que pretende a China com o Fórum de Macau? Para responder a esta questão, os intervenientes neste seminário enquadraram, primeiramente, a relação da China com os países lusófonos, numa estratégia mais ampla de Pequim para África e para o chamado “Mundo em Desenvolvimento”. Heitor Romana considera que a China pretende claramente ter uma posição de cada vez maior preponderância em África não só por causa da necessidade de obter recursos energéticos, mas também numa perspectiva mais ampla de “afirmação internacional”.
No continente africano, os chineses acenam com a não ingerência nos assuntos internos – contrariamente ao que faz a UE que condiciona a ajuda à melhoria na situação dos direitos humanos e à “boa governação” - e com a “solidariedade activa entre países em desenvolvimento”. Ou seja, Pequim procura ilustrar que pode servir de modelo alternativo aos sistemas político-económicos ocidentais, uma vez que a China também já passou pelos processos por que passam as nações africanas.

Uma plataforma bilateral

Contudo, nalgumas situações, as empresas chinesas não são bem encaradas pelas populações, uma vez que, “em vez de empregarem a população local, trazem sobretudo trabalhadores da China”, afirmou Narana Coissoró. Tadeu Soares disse que sabe de “países que se sentem algo ofendidos com certas atitudes de agentes económicos chineses”.
Neste processo, o Fórum deve ser encarado como “um instrumento para a cooperação, essencialmente bilateral, e não tanto do ponto de vista multilateral, em que cada país quer maximizar a sua relação com a China”, defendeu Duarte Jesus, antigo embaixador de Portugal em Pequim, outro dos oradores convidados. Isto porque cada governo encara a sua relação com a China de forma diferente e as autoridades chinesas têm interesses diferentes com cada país.