Director: Carlos Morais José
 

--- 27-09-2006 ---
“Ouçam os críticos”
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Narana Coissoró | Ex-deputado e investigador

A China está a construir a sua obra

Narana Coissoró esteve este fim de semana em Macau como convidado para o Fórum da Cooperação Económica e Comercial entre a China e os países de língua portuguesa. O ex-deputado do CDS está a coordenar uma investigação sobre o papel do Fórum nas Relações entre a China e os Países Lusófonos, uma iniciativa do Instituto do Oriente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa.

José Carlos Matias

Comecemos por um balanço da sua investigação.
“Devo dizer que o projecto está em marcha, como está em marcha o próprio Fórum. O Fórum tem três anos e está a desenvolver-se de uma maneira muito rápida e muito eficiente. Não é altura de tirarmos conclusões porque isso é fazer um balanço e não se pode fazer um balanço o meio de um projecto. Se este projecto estivesse a fraquejar, a fragilizar-se, entao já se podiam tirar as conclusões, dizer ‘olha isso não vai durar muito, não é?’ Mas está em enorme expansão, está com vitalidade, portanto, há novas tentativas de modificar para melhor as contribuições da China e de outros países ou para o reforçar. Seria prematuro fazer outro juízo que não o de que ele não só ganhou uma velocidade de cruzeiro como está a acelerar. O que nos interessa saber para este projecto, e porque nós não somos uma escola de economia, não é quanto de importação e exportação há, quantos milhões, ou biliões, mas sim definir a natureza política deste projecto.

E que natureza é essa?
Por enquanto é difícil dizer que natureza política é. Com a União Europeia, que tem tantos e tantos anos, ninguém sabe neste momento qual é a sua natureza política, ninguém pode afirmar que é uma confederação de estados ou que é como uma comunidade intergovernamental. Se a gente perguntar a um especialista qual é a natureza política e jurídica da UE, ninguém sabe, quanto mais a de uma comunidade que só tem dois anos. Não podemos catalogá-la neste momento em termos clássicos tradicionais do Direito Internacional Público ou das Relações entre modelos de Relações Internacionais. Ela foi extremamente importante na medida em que se não fosse na plataforma chinesa, não haveria outra forma de se agrupar todos estes países de fala portuguesa debaixo de um chapéu porque Portugal não era capaz de fazer isso.

Porquê?
Porque, em primeiro lugar, não tinha capacidades materiais para levar capitais como a China está a levar para todos estes territórios que falam português. Além disso, seria extremamente difícil trazer o Brasil para esta aventura. Nunca seria possível aglutinar, levar a efeito uma forma de estarem todos juntos e estarem a trabalhar todos para um mesmo fim que é o desenvolvimento rápido desses países, nomeadamente Cabo Verde e Angola que sobem rapidamente para o chamado patamar de desenvolvimento médio.
Em segundo lugar, a língua portuguesa nunca foi tão fundamental na concretização deste projecto apesar de todos falarem português, a não ser que haja um terceiro a pegar nesta língua e, à base desta língua, construir algo que diga respeito a todos e que dá vantagem a todos, que não prejudique nenhum dos países. Não há uma superioridade de um país sobre o outro, porque todos são receptores e têm relações com a China e têm muito poucas relações uns com os outros. É uma espécie de gancho em que estão todos esses países que se dão entre si porque estão presos por uma plataforma que tem a vantagem de ser um território de antiga administração portuguesa: Macau. E isto é novidade.

E a China, o que pretende?
O que é que a China pretende com isso? Aqui há dois aspectos diferentes. De um lado a China está com um desenvolvimento violento, quase doze ou treze por cento por ano, e precisa urgentemente de energia, principalmente de petróleo, precisa das matérias primas, precisa de importar meios, precisa de exportar as suas máquinas, precisa de importar tecnologia, precisa de importar o know-how dos países que lhe estão à frente, não é o caso dos países africanos, mas precisa também de se estruturar de uma maneira rápida e substituir-se às potências antigas, como por exemplo a América, a França e a Inglaterra. Está na posição de nunca ter tido um império em África, ajudou todos os países de África para na sua libertação e tem, portanto, estes laços de solidariedade independentista. Em terceiro lugar dá-lhe a contrapartida ao que ela investe os produtos que representam exportações para a China, por isso é muitíssimo melhor vender em Macau, construir coisas em Macau, fazer investimentos directos em Macau, abrir uma linha de crédito em Macau com juros razoáveis e até com um período de graça de cinco anos, por exemplo, para depois receber o retorno desses capitais. Em vez de dólares, receberá em petróleo ou em soja de Moçambique, em produtos agrícolas ou em minérios. Por outro lado, também é bom porque Cabo Verde não tem petróleo, não tem agricultura, não tem soja, não tem nada a não ser a sua posição estratégica no médio Atlântico, uma posição estratégica para o turismo. E investir nos serviços de turismo representa uma ligação para a Ámerica do Sul, para a Europa, e acrescenta valores a Cabo-Verde.
Também é certo que a China não faz isto apenas com territórios de língua portuguesa, faz com muitos outros países.

Há uma ideia que podemos ter e que julgo ser mais ou menos acertada: entender o Fórum e a relação da China com os países de língua portuguesa num contexto mais amplo, as relações da China com os chamados países em desenvolvimento quer da África e também da América Central.
América Central, Costa Rica, Panamá, e há países em África que estão a aproximar-se. Quer dizer, isto vai na mesma relação em que estão os outros. Agora, para nós portugueses, isto representa um benefício na medida em que nós participamos, e participamos bem. A nossa ajuda não é uma ajuda qualquer, temos gasto lá milhares de milhões de investimentos em dólares, tanto em Angola como Moçambique, e quanto mais estes países se forem desenvolvendo para os nossos empresários isso representa mais valias. Em segundo lugar os empresários, tambem podem competir com os chineses na construção de muitas coisas, e é natural que para nós não seja novidade construir edifícios em Angola. Mas a China constrói edifícios governamentais, para o Estado, completamente com mão de obra chinesa, quase diria com exagero pois não emprega um único angolano ou moçambicano para estas obras. Angola e Moçambique não aprendem o know-how para mais tarde poderem fazer as suas próprias obras. A China faz isso porque tem excesso de mão de obra dentro das suas fronteiras, mão de obra regional que é levada para lá, acaba a construção e volta. Lá vivem numa completa separação da comunidade, entre os trabalhadores chineses e os africanos, por exemlo, não há comunicação, porque o chinês não aprende o Africano e o africano não aprende o chinês. O chinês não chega a criar aí raízes.
Em terceiro lugar não há relações étnicas, digamos, que levem os africanos a temerem que haja uma imigração muito grande da China. Em relação a Portugal a coisa é completamente diferente, nós conhecemos a zona, os africanos falam português, já tiveram história e adaptam-se, dão os trabalhos aos africanos e fazem obras de qualidade muitíssimo melhor do que a qualidade chinesa. Ontem, alguém que entrevistei, dizia-me que os africanos recursam-se a ir para as habitações construídas pelos chineses e preferem ficar nas suas cobatas porque antes de entrar na casa já há rachas na parede e têm medo que a casa caia. E não percebem por que é que o cimento tem de ser levado da China…

É um outro lado da moeda dos investimentos chineses em África..
É para mostrar como, para Pequim, além de desenvolver Angola estas iniciativas resolvem, assim sem grandes custos, muitos problemas socias da China. Por outro lado, a China não quer manter-se, como muita gente gostaria, apenas como uma grande potência regional. A China tem ambições, e com razão, para efectivamente vir a ser um grande player internacional, e para ser um player internacional ela precisa atrás de si de uma obra, de povos, de estados que sintam uma solidariedade, um grupo de estados regiões que lhe dêem a importância que ela quer ter na sede internacional. Portanto, está a ver a China apoiada pela África do Sul, apoiada por alguns países da America Latina, apoiada por alguns países asiáticos da zona de influência dela. Torna-se um player muitíssimo maior do que se se resumisse a ser uma potência germânica asiática. Assim tem voz, tem peso e poderá mostrar a sua capacidade no mundo de amanhã de fomentar um diálogo sul-sul, como pode haver um favorecimento das grandes potências económicas não tradiocinais, como se pode contribuir para o desenvolvimento dos países não desenvolvidos. Isto é fundamental para o mundo e para a China e é uma das maneiras de reagir à globalização, que está nas mãos das grandes potências clássicas, o G8.

Uma última questão que não posso deixar de fazer, que tem a ver com a CPLP, no início desta conversa o professor referiu que o Fórum é uma forma de congregar os países de língua portuguesa com um gancho que é a China, de que modo é que o Fórum e as relações da China com os países lusofonos é complementar? Há uma sobreposição ou um concorrente de um outro processo anterior que é o da comunidade dos países de língua portuguesa?
Eu acho que não há nada disso, mas você deve ter reparado hoje que as autoridades chinesas na conferência várias vezes quiseram falar na CPLP, eliminaram o C, só falavam na PLP e isto é sinal claro de que a China já não vê esses países para si como comunidade de língua portuguesa. Vêos apenas como países de língua portuguesa, reparou? É uma coisa fundamental. Mas o que é que isto significa? Significa que China não quer fazer este grande esforço que está a fazer para reforçar a CPLP, ela quer reforçar os PLPs, quer reforçar Angola, Moçambique, etc. Em segundo lugar, não há concorrência, discordância, ou qualquer má vontade da China de absorver a CPLP, e por uma razão muito simples: a CPLP nunca fez nada, esteve sempre no papel. Apesar de existir a CPLP, Moçambique já dava sinais de querer sair da CPLP para entrar na Comonwealth. Oque travou Moçambique para se manter como país de língua portuguesa foi a China. Nunca mais se falou da ida de Moçambique para a Comonwealth. A CPLP é uma comunidade de sentimentos, uma comunidade de língua que é muito importante, mas só língua não é nada. É preciso mostrar que existe uma potência que é capaz de sustentar o desenvolvimento desses países e ao mesmo tempo tratá-los com igualdade.

Só mais uma questão que tem a ver com S. Tomé. É o único país da CPLP que não faz parte do Fórum e é já é público que esteve aqui a ministra do Comércio, Cristina Dias. Será que podemos começar aqui a falar num efeito de Fórum de paulatinamente puxar S. Tomé de novo para a orla de Pequim?
Pequim não deve estar muito muito preocupada com as relações S. Tomé/Taiwan porque, acima de tudo, São Tomé é demasiado pobre para atrair atenção…

Mas tem recursos naturais…
Tem roças, tem café e tal, e o turismo está todo abandonado, hoje é um país muito pobre.

E o petróleo?
Taiwan não lhe pode dar aquilo que a China lhe poderia dar. Dar-lhe a oportunidade de ver o que os países vizinhos beneficiam estando com a China é um acto de generosidade e um acto de inteligência.

*Entrevista dada à Rádio Macau, disponível também em www.tdm.com.mo/pt