Director: Carlos Morais José
 

--- 25-09-2008 ---
O sistema é sereno
“Fiquei preocupada e vim levantar dinheiro”
E tudo a água levou
A culpa foi da Niña
Três mortos e 100 mil desalojados
Onda vertiginosa





Porto Interior e San Ma Lou devastados por inundações

E tudo a água levou

Pilhas de lixo, roupa e sapatos molhados e vendidos ao desbarato. Gente à procura de bons negócios. Comerciantes desesperados, com o pensamento no prejuízo, enquanto limpam as lojas. Era este o cenário ontem na San Ma Lou e no Porto Interior, duas zonas de Macau que acordaram inundadas devido ao tufão.

Alexandra Lages
Island Ian

O que era antes uma é agora duas. Uma avenida partida em duas. Nos sítios onde chegou a água, a Almeida Ribeiro está quase deserta. O percurso assusta. Chegando a meio, como quem vai para o Porto Interior, não fosse o trânsito e a rua estaria morta. As luzes das joalharias estão desligadas, não há ouros nem diamantes nas montras e as cadeiras estão em cima dos balcões. Quem já conseguiu retirar a água de dentro das lojas limpa o que há para limpar ou apenas se senta à porta a pensar no prejuízo.
É o que acontece numa galeria de antiguidades. “Quando soubemos que ia ser içado o sinal 8, tentámos prevenir uma cheia, mas era muito forte, não havia nada a fazer”, recorda a funcionária May Cheung. O “patrão” está no escritório a fazer contas ao prejuízo, mas ainda não podem fazer uma estimativa. “Não fazemos ideia, estamos a fazer o inventário, há muita coisa que se estragou e que, provavelmente, foi arrastada pelas águas”, afirma.
A porta ainda tem a marca da altura do agente invasor. “A água atingiu os 1,30 de altura. Até os peixes da fonte andavam à solta”, acrescenta May.
O tufão Hagupit fez subir o nível das águas do Rio das Pérolas, causando inundações graves no Porto Interior, San Ma Lou, Ilha Verde e Fai Chi Kei. De acordo com a Capitania dos Portos, no Porto Interior, o marégrafo registou 4,6 metros de altura da água, entre as 2h30 e as 3h00 de ontem. Este valor foi o mais elevado dos últimos 15 anos. Apenas o tufão Becky conseguiu a marca de 4,78 metros em 1993. Em condições normais, as águas deveriam subir na maré alta até aos 2,75 metros mas devido à passagem da tempestade tropical a altura foi muito superior.
Tamanha era a força da água na Almeida Ribeiro que algumas estruturas de metal de protecção das lojas estavam deformadas. No ponto em que a avenida encontra a Rua 5 de Outubro, vêem-se comerciantes em lojas improvisadas.

Vender enquanto é tempo
Vendem calças, camisolas e sapatos no chão à porta dos estabelecimentos. Os clientes pegam na roupa molhada com interesse e nem hesitam em comprar. Um par de calças custa agora mais de metade do preço.
A situação repete-se várias vezes até ao Largo do Pagode do Bazar. À direita, na Rua das Estalagens, a senhora Cheang está a vender roupa por 10 patacas que antes valia 25. É uma corrida contra o relógio.
“Não temos tempo para nos mudarmos para um sítio mais alto. Agora não sabemos de quanto é o prejuízo, apenas estamos a tentar vender o máximo que conseguirmos”, explica.
Antes, as t-shirts do senhor Lei tinham o preço marcado de 39 patacas, mas estão a ser vendidas por 15. É a primeira vez que o comerciante passa por uma experiência de inundação grave. “A água chegou ao meu balcão, nunca pensei que o estrago seria tanto”, exclamou.

Milhares em prejuízos
O livreiro António Falcão e os seus vizinhos do Largo do Pagode do Bazar também foram apanhados de surpresa. Livros, pilhas deles, ainda a pingar são retirados aos montes da livraria Bloom. A água subiu quase um metro de altura. Nota-se bem pela marca nas paredes. “Perderam-se mais de 1500 livros, alguns únicos em Macau. São cerca de 500 mil patacas de prejuízo”, informa o proprietário.
À frente da loja, há móveis empilhados que já não têm serventia. Ou talvez não. Um indivíduo chega com uma chave de fendas e começa a retirar as rodinhas de uma estante branca. No meio de um caos que se vai, aos poucos, recompondo, transeuntes vasculham o lixo em busca de algo que se aproveite.
A caminho do mercado dos Tim-Tins, passam carros carregados de massas e outros alimentos degradados. Vão todos para uma rua perpendicular à 5 de Outubro. É quase impossível ali passar. Há todo o tipo de produtos alimentares vindos de restaurantes, mercearias e farmácias chinesas depositados. O cheiro é insuportável. Um camião do lixo estacionado tem a responsabilidade de levar tudo dali para fora.
Caminhar nas calçadas dos passeios não é tarefa fácil, a lama faz escorregar os sapatos. Os automóveis têm que dividir o espaço da estrada com os montes de lixo. Os passeios servem para escoar as águas.
Aos designers portugueses Manuel Correia da Silva e Clara Brito valeu-lhes a altura da loja. “A água dava pelo joelho”, mostra o proprietário. O prejuízo “não foi catastrófico, sendo mais trabalho de limpeza”. O material informático ficou irrecuperável, observando-se danos na ordem das 10 mil patacas. Isto sem contar com o trabalho e o incómodo.
De acordo com os dados do Centro de Protecção Civil, durante a passagem do tufão Hagupit foram assinalados 218 incidentes, incluindo, entre outros, a queda de árvores, andaimes, publicidade, corte de energia de energia eléctrica, grandes inundações nas zonas mais baixas do território e cinco pessoas feridas. Durante o período de sinal 8, oito cidadãos receberam abrigo no Centro de Acolhimento da Ilha Verde do Instituto de Acção Social.