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| Tema: Entrevista com Jorge Morbey | | Antigo presidente do Instituto Cultural defende que Portugal deve cortar parceria com Monjardino |
| “FO não tem mais fôlego” -- | |
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Jorge Morbey atacou forte a parceria entre o Estado Português e Fundação Oriente num texto de opinião publicado no Hoje Macau na sexta-feira. Em entrevista, o antigo presidente do Instituto Cultural explica porque é que Carlos Monjardino e a instituição que lidera podem sair de cena no que toca à divulgação da língua portuguesa na RAEM e no Oriente
Sónia Nunes
Não aceita o argumento de vender património para garantir a manutenção do Instituto Português do Oriente (IPOR) quando está na calha a reformulação do Instituto Camões e não quer ver a Livraria Portuguesa encolhida para um beco e com mais livros em inglês. Jorge Morbey apela ao Estado Português para se redimir do pecado original cometido há 20 anos: a pareceria estabelecida com a Fundação Oriente deve ser cortada. Quem deve decidir sobre o futuro da língua e do ensino do português no mundo é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), contrapõe o historiador e antigo adido cultural junto da embaixada portuguesa em Pequim
É compreensível a opção do IPOR e, por inerência, do Estado Português, de vender as instalações da Livraria Portuguesa para criar um fundo para a difusão da língua?
Não faz qualquer sentido. Na última deslocação a Macau, o ministro dos Negócios Estrangeiros [português] anunciou que o projecto de reestruturação do Instituto Camões – e, com isso, de toda a acção cultural portuguesa no estrangeiro – estaria na fase final. Ficou-se com a convicção de que haveria bastante dinheiro para fazer o que é preciso fazer. Pouco tempo depois, veio o anúncio da venda das instalações da Livraria Portuguesa para criar um fundo para a manutenção do IPOR. Ora, se há dinheiro do ministério dos Negócios Estrangeiros para a acção cultural externa, não faz sentido que seja preciso alienar património que é do Estado Português e da Fundação Oriente (FO) para executar essa política.
Mas também admite que Portugal não tem recursos. A criação de um novo fundo não poderia re-institucionalizar a distribuição do orçamento do Estado Português para a promoção da língua?
Não é por aí. O património que o Estado Português, em parceria com a FO, dispõe em Macau foi adquirido em condições extremamente vantajosas. O Estado Português não tomaria a iniciativa de alienar imobiliário seu: não lhe resolve problema nenhum. Isto aparece como uma ginástica de carácter financeiro – por iniciativa da FO e para resolver os seus próprios problemas.
Voltamos ao pecado original. Àquilo que identifica como um dos maiores erros cometidos por Portugal em Macau: ter-se associado à FO.
Toda a génese da FO foi complicada. Foi fonte de embaraços no relacionamento bilateral entre Portugal e a China. Ter dado à FO, na altura em que foi instituída, uma palavra decisiva na reestruturação do sector da cultura em Macau foi excessivo; ter dado a uma entidade privada (ainda que tenha sido declarada de interesse público), com sede fora de Macau, a voz activa que teve para decidir aquilo com que queria ou não ficar foi um erro enorme.
Estes anúncios de alienação de património podem estar a perturbar as relações entre as duas diplomacias?
Quando digo que a FO constituiu uma fonte de perturbação nas relações bilaterais entre Portugal e a China, refiro-me àquele período altamente sensível, entre a assinatura da Declaração Conjunta e a transição. Havia alguma (acho que lhe posso chamar assim) “alergia” da parte chinesa em relação à FO. Houve representantes chineses do Grupo de Ligação que encaravam muito mal todo o processo. As facilidades que a FO teve para a aquisição do património imobiliário... havia uma rejeição do papel da FO em Macau. Estes anos todos, mostram que estavam eles mais próximos da realidade. Agora, não há razão para as relações não serem normais – tanto mais que a actividade da FO é praticamente invisível. Acredito que as coisas estejam em paz.
Como deve o Estado Português resolver a questão?
Deve corrigir o erro cometido há 20 anos. É evidente que a FO não tem mais fôlego para continuar a parceria – que não diz respeito só a Macau, mas a todo o Oriente, designadamente ao apoio às estruturas culturais das embaixadas. A Língua Portuguesa não é património exclusivo de Portugal. Todos os demais países de língua portuguesa estão empenhados na CPLP. Está aí o caminho para todas estas questões da Livraria, das Escolas Portuguesas e dos Leitorados de Português nas universidades estrangeiras: o foro próprio para tudo isso é a CPLP. O Estado Português devia fazer agulha nesse sentido e agradecer muito à FO a colaboração que lhe tem prestado, na parceria que, em má hora, foi feita.
É exequível, nesta fase, desvincular o Estado da FO?
É tão fácil! É fazer o balanço e contas e pagar (ou receber) da outra parte aquilo que for devido.
E há vontade?
Só o ministério dos Negócios Estrangeiros e a FO é que podem dizer se estão interessados numa solução destas. Foi um casamento de conveniência. O Estado Português pensou que ia ficar bastante aliviado: a FO era rica e tinha disponibilidade para fazer coisas que competiam ao Estado, que não tinha dinheiro para as fazer. A FO entrou porque tinha a perspectiva de colher lucros e dividendos que, como se tem visto, tem colhido. Já deu conta ao lucro obtido pela FO na venda dos imóveis da Av. Conselheiro Ferreira de Almeida?
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