Director: Carlos Morais José
 

--- 13-03-2009 ---
À disposição das associações
IPOR à espera sobre Acordo
Projecto não morreu
O que seria ideal
FO não paga contas
Uma língua sem estratégia
Cuidado com o comprimido
Tempo volta para trás
Travagem adiante
Ricos mais pobres
Uma saída que faz tremer
O lado bom da crise
“Senhor Bairrada” no MGM





IPOR decidiu suspender venda de Livraria Portuguesa até 2010

À disposição das associações

A batalha chegou ao fim, mas talvez não a guerra. O IPOR parece ter cedido aos protestos e suspendeu a venda da Livraria Portuguesa. Mas eis que se colocam novas questões: foi-se embora o perigo ou a suspensão é apenas um intervalo? A Livraria vai continuar como hoje a conhecemos?

Alexandra Lages*

“A questão da dinamização do espaço da galeria da Livraria Portuguesa depende das associações. O Instituto Português do Oriente (IPOR) gostaria muito que as diferentes associações portuguesas também utilizassem aquele espaço”. A garantia foi deixada pelo presidente interino do IPOR, Rui Rocha, que falou ao Hoje Macau após ter sido decidida a suspensão a venda das instalações.
A cedência da galeria para actividades culturais “é a custo zero”, recordou Rui Rocha, salvaguardando que apenas durante a altura de venda dos livros escolares é que o espaço se encontra indisponível. O mesmo responsável deu ainda aquilo que considera ser um exemplo da abertura do IPOR no que toca à utilização da Livraria Portuguesa: para as comemorações do 25 de Abril, uma associação local já solicitou o espaço para levar a cabo uma exposição de arte.
Afinal, o espaço já não será vendido, pelo menos até 21 de Dezembro de 2010, quando termina o contrato com o actual concessionário. A decisão de suspensão da venda foi realizada em assembleia geral da instituição, em Lisboa, na passada quarta-feira, numa notícia avançada pelo jornal “Ponto Final” na sua edição de ontem.
De acordo com o diário, a assembleia geral do IPOR – do qual a Fundação Oriente (FO) possui 44 por cento e o Instituto Camões é o sócio maioritário – não só decidiu protelar a venda das instalações da Livraria Portuguesa como adiar uma nova concessão de exploração para o final do contrato do actual concessionário, que termina em 2010. O presidente da FO, Carlos Monjardino, explicou que a futura concessão será atribuída por concurso público, que será lançado antes de terminar o acordo com Aloísio da Fonseca, antigo presidente do instituto que explora o espaço.

E agora?
A suspensão do processo surge depois da Casa de Portugal em Macau (CPM) e a Associação dos Macaenses (ADM) terem lançado na Internet uma petição intitulada “Salvemos a Livraria Portuguesa” que recolheu em poucos dias mais de 3500 assinaturas. A notícia deixou os dinamizadores da acção com um travo de vitória na boca.
Foi o caso da presidente da CPM, Maria Amélia António. No entanto, a suspensão foi apenas “o primeiro passo”. O problema ainda não está resolvido.
“É o momento certo para se discutir e clarificar tudo: o futuro papel do IPOR, da Escola Portuguesa e do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes”, defendeu a advogada.
A mesma opinião é partilhada pelo presidente da ADM, Miguel Senna Fernandes. “Em princípio, é uma boa notícia. Imperou o bom senso. Só espero é que sejamos bem informados sobre o decorrer do processo”, alertou.
O conselheiro das Comunidades Portuguesas do Círculo Macau, Hong Kong, China, Japão e Tailândia, Fernando Gomes, assina por baixo das palavras do advogado. “A comunidade fica grata com a decisão”, destacou. Recorde-se que a Livraria Portuguesa foi um dos assuntos abordados com o novo cônsul-geral de Portugal na RAEM, Manuel Cansado de Carvalho, na primeira reunião oficial com os três conselheiros, que decorreu na quarta-feira.
Apesar do recuo na venda da Livraria, foi decidido avançar com a venda de um apartamento no sétimo andar do mesmo edifício, que tem funcionado como escritório e armazém, e que era igualmente do IPOR. Parte da decisão de não vender a Livraria, justificou Monjardino, teve a ver com o baixo rendimento potencial do fundo financeiro – que fixou em dois por cento – que iria ser criado com os cerca de 50 milhões de patacas resultantes da alienação do espaço.

Questão de finanças
É por este motivo que a notícia não alegra o arquitecto e antigo presidente do Instituto Cultural, Carlos Marreiros. “Não tenho razões objectivas para ficar feliz, porque apenas se adia a situação em relação à Livraria Portuguesa. Não foi vendida não porque houve uma vitória da comunidade, mas porque os interessados na compra recusaram”, devido à quebra do mercado imobiliário, avaliou.
A venda do espaço depende, segundo o responsável, da situação da economia. “Será vendida quando as condições forem melhores e o metal for mais sonante”, garantiu.
Carlos Marreiros salientou ainda que a petição da CPM parece ter tido pouca repercussão na assembleia geral do IPOR, visto não ter sido referida por Monjardino. “As instituições de Portugal não ficaram sensibilizadas com a mobilização da comunidade portuguesa, macaense e da diáspora, que ao longo dos séculos dignificou a presença de Portugal no mundo”, afirmou.
A partir deste momento, aconselhou, a comunidade não deve cessar o debate público, deve continuar a trabalhar e, com serenidade, apresentar propostas objectivas a todos os intervenientes, para que todos saibam que há interesse na manutenção da Livraria Portuguesa, tal qual como existe.
Quanto ao repto lançado por Rui Rocha quanto à galeria da Livraria, Miguel Senna Fernandes está totalmente de acordo, revelando existirem alguns planos da ADM à medida deste espaço. “A comunidade deve utilizar e dar uso à galeria”, frisou.

* Com Sónia Nunes e Emanuel Graça