Director: Carlos Morais José
 

--- 24-09-2009 ---
O meu percurso eleitoral
Democratas, Operários e Melinda






Democratas, Operários e Melinda

A estratégia de Ng Kuok Cheong e Au Kam San resultou. A Associação do Novo Macau Democrático (ANMD) reforçou a sua posição na Assembleia Legislativa ao garantir a eleição de um terceiro deputado. A hipótese de assegurar um quarto assento esteve sempre longe e penso que nem os próprios dirigentes da ANMD acreditaram (sinceramente) nesse cenário.
Com três deputados, a chamada ala democrata ganha também novas responsabilidades e espera-se que Paul Chan Wai Chi traga novo fôlego e vivacidade à participação dos democratas. O estilo de Ng Kuok Cheong e Au Kam San já não é o mais adequado para fazer crescer ainda mais a principal força política de Macau.
A grande vencedora destas eleições foi, contudo, a União para o Desenvolvimento. A líder da lista da Associação Geral dos Operários de Macau (AGOM), Kwan Tsui Hang, que foi em minha opinião a melhor deputada da actual Legislatura, resistiu às campanhas de difamação de que foi alvo e demonstrou que sabe o que está a fazer. Com a ajuda de Lee Chong Cheng, que transitou do sufrágio indirecto para o directo, conseguiu fazer a renovação, que a União Geral das Associações de Moradores e a Associação das Mulheres (lista 13, União Promotora para o Progresso) não soube concretizar no terreno. Em 2005, Iong Weng Ian foi a última a garantir a eleição, o que levou os dirigentes dos “kaifong” a apostar em caras novas. Só que Ho Iong Sang (eleito) e Chan Hong estão muito longe do carisma e da popularidade do veterano Leong Heng Teng, que acabou por ser um dos derrotados destas eleições, embora não tenha concorrido. Mas esteve na origem de uma aposta que acabou por não convencer o eleitorado. Será, certamente, compensado com o regresso à Assembleia Legislativa pela via dos nomeados ou com um lugar no futuro Executivo, já que não chegou ainda a hora de se reformar da política.
Melinda Chan foi uma das grandes vencedoras das Legislativas 2009. Nas previsões que avancei na edição de 7 de Setembro não inclui a líder da lista 5 (Aliança P´ra Mudança) no conjunto dos prováveis eleitos. Errei!…
Melinda Chan foi a grande vencedora da campanha eleitoral. Conseguiu ganhar autonomia em relação ao marido, David Chow, passou uma mensagem clara aos votantes e provou ser uma mulher com ideias fortes, que poderá levar algo de novo ao Hemiciclo.
A ACUM (lista 7) perdeu votos em relação a 2005. Chan Meng Kam e Ung Choi Kun foram reeleitos, mas não conseguiram conquistar novos eleitores. Nem com a ajuda do Governo no “dossier” das famílias separadas. O que deixa antever que vão necessitar de trabalhar mais e melhor para evitar dissabores em 2013.
Angela Leong obteve quase mais três mil votos que em 2005, mas voltou a falhar a eleição de um segundo deputado. A campanha eleitoral foi bastante atribulada e não tirou partido da força que o império Stanley Ho tem em Macau. Deve melhorar a sua prestação na AL para conquistar uma maior fatia de votos. Na sua primeira Legislatura teve poucos rasgos e não recordo nenhuma intervenção que mereça grande destaque.
A Nova Esperança reforçou a sua votação (mais 3185 votos), mas falhou a eleição de Rita Santos. Pereira Coutinho continua a defender Rita Santos como a melhor segunda candidata, mas estou convencido que ambos os dirigentes da ATFPM pescam nas mesmas faixas do eleitorado. Um candidato chinês que alargasse o universo da Nova Esperança parece-me melhor opção. Uma questão que deve ser reflectida para que em 2013 o objectivo da eleição de um segundo deputado seja concretizado.
A eleição de Mak Soi Kun não surpreendeu. Herdou o eleitorado de Fong Chi Keong (tinha integrado a lista do deputado, que agora optou pela via indirecta) e confirmou o peso que tem este grupo de construtores civis-empresários, que muitos sectores apontam como muito próximo de Edmund Ho.
Numa eleição, em que as mulheres tiveram um papel preponderante, Agnes Lam foi outra vencedora. É certo que não conseguiu a eleição, mas ultrapassou a fasquia dos 5000 votos, o que abre boas hipóteses para 2013. Agnes Lam já demonstrou que tem um projecto claro, que sabe tirar partido das novas tecnologias para fazer chegar a sua mensagem aos eleitores. Com uma máquina mais bem oleada pode alcançar o Hemiciclo nas próximas eleições. Macau necessita da intervenção cívica que a académica pretende continuar a ter na RAEM.
A Voz Plural ficou aquém do que se esperava, já que praticamente não conseguiu alargar a sua votação (932 votos, contra 892 de Sales Marques em 2005). O que deixa no ar uma grande questão: não são mais de 1000 os eleitores que apoiam a chamada lista dos macaenses? A sua base de apoio é tão curta? À partida parece que sim. Os resultados de 2005 e 2009 confirmam esta tese. O que deve levar todos os que, directa ou indirectamente, apoiaram Casimiro Pinto a uma profunda reflexão. A associação entretanto criada parece-me ser o fórum ideal para a discussão da futura estratégia. Uma discussão que deve ser o mais alargada possível e não ficar confinada, como tem sido hábito, a um número reduzido e aos mesmos do costume.
Uma achega: chegou, talvez, a hora de pensar em futuras alianças para as Legislativas. É importante que se afirmem os valores do segundo sistema, de uma comunidade que tem e terá história em Macau, mas a reduzida representação que a votação tem revelado pode fragilizar a afirmação desses objectivos.
A comissão eleitoral (CEAL) prestou um mau serviço a Macau. Não teve mão pesada, quando devia ter, para com as candidaturas que não cumpriram as regras estabelecidas, como sucedeu, por exemplo, com Angela Leong.
A CEAL voltou a errar quando admitiu o transporte de eleitores. Na noite eleitoral foi um autêntico desastre. Nada justifica que a população tenha ficado horas e horas à espera dos resultados. Não sei se foi do carimbo, do equipamento informático, do enter, etc. Revelou incompetência, amadorismo e, sobretudo, enorme falta de capacidade para responder ao que todos queriam: saber os resultados.
Vasco Fong não precisa de se irritar com os jornalistas portugueses. Se tivesse feito o seu trabalho não teria tido a maçada de os aturar durante vários dias. Já agora um conselho: não é necessário enviar sms a dizer que os resultados vão ser afixados, finalmente, às 18 horas de terça-feira e depois fazer esperar os jornalistas mais de duas horas. Tempo é dinheiro e nos órgãos de comunicação social há sempre muito a fazer.

P.S. Por causa da análise às eleições Legislativas de 2009, a “Olhadela” desta semana não tem a estrutura habitual.