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| MANUEL AMANTE DA ROSA, EMBAIXADOR, SECRETÁRIO GERAL ADJUNTO DO SPFCEPLP: | | "Macau pode ser um centro académico de estudos lusófonos " |
| Helder Fernando -- | |
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Em jovem viajou por rios e mar que banham a Guiné-Bissau, país onde nasceu Manuel Amante da Rosa, este cabo-verdiano filho de cabo-verdianos. Agora viaja diferente pelo mundo da diplomacia, das Nações Unidas a Angola, do Brasil a Cabo Verde, de Moscovo a Macau.
Já com apreciável experiência internacional, que local quer destacar?
Dois. Um do ponto vista pessoal, outro do ponto de vista profissional, diplomático. Quanto ao pessoal, foi em Angola, onde estive como embaixador entre 1995 e 99, em circunstâncias algo difíceis, sem culpa para Angola, que tive de contornar e, felizmente, vencer e prestigiar o meu país. Acabei por fazer boas amizades ao mais alto nível, bem como zelar pelos interesses da comunidade cabo-verdiana ali residente, umas dezenas de milhar, muitos deles indocumentados. Durante o período em que estive em Angola, assinámos acordos que nunca tinham sido assinados.
E do ponto de vista profissional?
Foi em Moscovo, onde chego em plena "perestroika", o Gorbachov tinha acabado de assumir o poder. Chego a um país em completa e, em alguns aspectos, radical transformação. Havia mais de cem representações diplomáticas, situações dificílimas, a segurança para algumas representações diplomáticas passou a ser inexistente, países cujo principal sustento era o governo soviético, deixaram de a ter, e, acima de tudo, a desestruturação daquele grande país. Uma oportunidade excepcional que vivi, para o grande exercício da diplomacia.
Conheceu pessoalmente Gorbachov?
Naturalmente que sim, estive junto dele algumas vezes, inclusivamente fui recebido e até me lembro de, durante um encontro com diplomatas, ele ter comentado o facto de eu ser o mais jovem representante. Gorbachov era uma figura cativante. E também acontece que tínhamos mais de quatrocentos estudantes cabo-verdianos espalhados pelo país, a quem era necessário dar muita atenção. Foi uma experiência que me serviu muito a seguir, por exemplo quando estive no Brasil até 2002, onde havia mais de 900 cabo-verdianos. Se até àquela altura a maior parte dos nossos estudantes ia para a então União Soviética, depois do estabelecimento da Federação Russa, optámos pelo Brasil que, nesta altura, é o segundo país, depois de Portugal, onde temos mais estudantes no estrangeiro.
Em Macau há apenas um pequeno número de estudantes cabo-verdianos.
Sim, um pequeno núcleo. Talvez venha a existir a oportunidade do número aumentar quando estiver concluído o novo campus universitário na Ilha da Montanha. Mas falando como secretário geral adjunto do Secretariado Permanente do Fórum, gostaria de ver em Macau um núcleo consideravelmente maior de estudantes dos países de língua portuguesa. Seria uma forma de ter no campus da Universidade de Macau uma diversidade linguística e cultural com forte representação do espaço lusófono.
A diplomacia tem fama de por vezes ser um pouco cinzenta...
Muito cinzenta. É algo que muitas vezes tem de ser. Mas noutras circunstâncias, noutras profissões, isso também acontece, inclusivamente no mar. Eu também naveguei. Meu pai tinha traineiras, eu andava muito com ele, até aos 17 anos e depois em barcos de transporte de passageiros que ele adquiriu, subindo os rios da Guiné em plena guerra, zonas perigosas; sei que no mar muitas vezes as coisas também são bem cinzentas (risos).
E esta experiência diplomática em Macau, já com dois anos de permanência, com contornos bem diferentes de outros lugares onde esteve?
Tem sido muito positiva. Posso dizer que no primeiro ano foi difícil a minha adaptação ao novo trabalho, a estes novos desafios, mas como fui tendo tantos desafios pelo caminho, as maiores dificuldades foram naturalmente ultrapassadas e hoje sinto-me mais realizado em Macau, tomei consciência destes ritmos, destas maneiras de ser. Macau é uma região muito acolhedora que cativa pelos aspectos interessantíssimos que tem. Seduz-me muito andar pela parte antiga da cidade, atravessar o Porto Interior, caminhar por aquelas ruas, observar as pessoas; é fascinante para mim, gosto muito.
Este Secretariado Permanente do Fórum vem confirmar o grande olhar da China, e também interesse, pelos países de língua portuguesa. Qual o objectivo maior desta instituição?
O objectivo maior é o aprofundamento das relações económicas e comercias entre a China e os países de língua portuguesa. Depois há objectivos complementares, como seja a divulgação entre todos os países envolvidos, das suas respectivas realidades.
Culturais também?
Por certo que culturais também. Realmente existe todo um substrato cultural que enforma esta organização do Secretariado Permanente do Fórum, dando-lhe uma certa moldura que ultrapassa e complementa os interesses económicos e comerciais. Este organismo tem realizado uma aproximação excepcional. Se imaginarmos o nível, a qualidade dos contactos da China com os países de língua portuguesa em pouco anos, podemos concluir que o Fórum foi um veículo facilitador e muito importante. Hoje, mais de dois mil técnicos dos países de língua portuguesa, já passaram pela China para fazer cursos de curta duração; só este, entre muitos outros exemplos, já dá alguma dimensão das pessoas que, do espaço lusófono, têm vindo conhecer com alguma profundidade este grande país.
Esses cursos de que fala passam pelo Fórum?
Os cursos são normalmente feitos em conjugação tripartida, entre o Ministério Chinês do Comércio Exterior, a entidade que organiza e o Fórum que desencadeia os pedidos para que venham os profissionais fazer esses cursos. Outro bom exemplo é o número de empresários lusófonos que periodicamente vêm à China através do Fórum ou através do Ministério referido. Como também têm ido da China até esses países. Tal intercâmbio só é possível com a existência dum núcleo dinamizador como tem sido o Fórum.
Existem algumas críticas.
Reconheço que sim, tudo na vida é criticável. Com o desenrolar do tempo e de toda a nossa experiência enquanto instituição, algumas coisas foram corrigidas e o Fórum tem vindo a melhorar de algumas naturais fragilidades iniciais, o que fica provado face aos resultados entretanto obtidos, como se sabe. Tenho muito gosto em sublinhar a competência e personalidade do novo secretário geral que foi nomeado, o Dr. Chang Hexi, uma pessoa muito dinâmica e profundo conhecedor, inclusivamente no terreno, da realidade dos países lusófonos, com a ideia exacta de como deve ser realizada a cooperação económica e comercial entre estes países e a China. Realço que temos tido um novo e muito salutar dinamismo. Temo-nos desdobrado ultimamente em contactos com várias regiões da China, em intercâmbios e acordos com algumas organizações que possam ser úteis a esta questão da plataforma de Macau, pelo menos no contexto dos países lusófonos. Mais adequados à situação do comércio internacional e a esta globalização, desejamos estar sempre à altura dos desafios que surjam pela frente. Estamos certos que sim, pois Macau tem uma localização estratégica preponderante no delta do Rio das Pérolas.
Aconselha os investidores dos países lusófonos a contactar este Fórum em Macau?
A esse tipo de empresários interessados em investir na China, o Fórum está cá para lhes servir de apoio e guiar através dos mecanismos que temos junto do Ministério do Comércio Exterior e de outras instituições. Podemos canalizar para parceiros interessados, tal como no sentido inverso, empresários chineses que desejem investir em países da lusofonia. É enorme, extraordinária a capacidade do cidadão chinês se adaptar a novos hábitos e culturas, aprender a língua; tiro o chapéu a esses cidadãos de grande vontade, coragem e sabedoria.
Com a experiência que já tem de Macau e com as informações que a sua missão naturalmente tem acesso, como observa o futuro da lusofonia em Macau?
Costumo encarar a lusofonia dum ângulo mais aberto, para além da particularidade da língua portuguesa. A lusofonia é um substrato cultural comum a todos esses povos que, duma forma ou doutra, tiveram contactos com Portugal. O intelectual e académico Eduardo Prado Coelho costumava dizer que a dimensão da lusofonia é, a nível global, ultrapassada pelas comunidades lusófonas.
A palavra lusofonia parece não o incomodar muito...
Não me incomoda mesmo nada. Pelo contrário, eu fui o chefe da delegação de Cabo Verde na última reunião onde se aprovaram os estatutos do Fórum em Moçambique. Como digo, o universo da lusofonia ultrapassa a questão da língua. Vejamos aqui em Macau, uma boa parte do património cultural existente, em paralelo com o de cultura chinesa, deve-se a construções de matriz portuguesa. Inclusivamente o modo de estar da população de Macau, desde logo os macaenses, a gastronomia, etc., etc. Para mim, isso é que compõe a lusofonia; para além da língua, reside no substrato forte cultural, temos valores comuns, históricos. Claro que tudo evolui, e Macau nestes dez anos também se transformou, nem podia ser diferente.
Realmente em Macau, por motivos conhecidos, a lusofonia não se mede através da força da língua portuguesa, a questão lusófona prende-se mais com outras formas de presença, como mencionou.
Já que me dá a oportunidade, nesse aspecto acrescento o seguinte: Gostaria muito que a língua portuguesa fosse mais utilizada em Macau. Reconheço que o governo da RAEM tem feito um grande esforço nesse sentido. Gostaria imenso de ver Macau tornar-se um centro por excelência, no Oriente, uma universidade de estudos lusófonos. Há condições que Macau pode despoletar por forma a fazer na Ásia um centro dessa natureza. A língua portuguesa está a tornar-se cada vez mais uma língua universal, mais actuante. A própria relação dos países de língua portuguesa com a China faz com que a língua portuguesa atinja mais e mais importância, se espalhe e se consolide nesta parte do mundo como nunca aconteceu. Os aspectos culturais, riquíssimos, dos países de língua portuguesa, do Brasil aos países africanos, por exemplo, na literatura e nas artes em geral, são uma atracção enorme e um grande trunfo também, para além dos aspectos comerciais.
As associações lusófonas em Macau têm feito o que podem nesse sentido.
Observo isso com a maior admiração, faço sempre o possível por estar presente nas suas iniciativas porque são uma forma de divulgar a sua cultura. São aspectos muito válidos, pois há muitos cidadãos chineses que aderem a essas iniciativas e assim tomam contacto mais informal mas muito importante com a multiplicidade cultural dos países da lusofonia. É muito positivo o apoio do governo da RAEM a essas associações, pois também é uma forma de dar sinal e manter a diferente especificidade de Macau. Mas é necessário ir mais longe. Volto à ideia que há pouco referi, Macau como um polo, um grande centro académico de estudos lusófonos.
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