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| Um problema que não existe... |
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Não é problema.
A primeira vez que ouvi falar na questão das pensões ilegais em Macau não levei a sério o tema e lembro-me de ter gozado com o assunto. Hoje mostro-me deveras preocupado porque as pensões ilegais começam a fazer parte de alguma confusão, perdão, discussão, na nossa venerada Assembleia Legislativa. O que quero dizer é que este assunto passou de simples acusações nos jornais e de frustradas tentativas policiais para debelar de vez o problema.
Com todo o respeito que merece um órgão daquela natureza, eleito democraticamente da forma singular que Macau conseguiu arranjar, começo a ver o interesse, quase emocional, dispensado por aquele nobre órgão à causa das pensões ilegais.
Não gosto de perder tempo com coisas que não me digam respeito mas, como cidadão de Macau interveniente da maneira que posso, e tendo a certeza que poucos darão crédito à minha voz, julgo, mesmo assim, ser de bom-tom para a minha consciência alertar estes cidadãos, de grandes préstimos à RAEM, que as pensões ilegais são um falso problema.
E porquê? Tudo muito fácil.
1 - Quem deseja dormitar nesses lugares chamados de pensões, não é nenhum habitante da terra, a grande maioria desses frequentadores são turistas do continente que apenas desejam descansar durante um par de horas antes de regressarem à Mãe pátria ou, em alternativa, de gastar mais uns cobres nos casinos para ficarem totalmente depenados.
2 - Regra geral esses turistas trazem o dinheiro contado para todas as despesas, vulgarmente vêm carregados com água e chá, comprados no outro lado da fronteira, e o dinheiro que sobra é para comprar um min ou uma outra refeição equivalente. De modo que, gastar o pilim em superficialidades é mesmo uma cena supérflua.
3 – Para quê gastar uma pipa de massa num sono caro se pode ser barato? Compreendo estes turistas, que preferem ocupar uma cama sem lençol lavado, quando a oferta em Macau de hotéis se torna um pesadelo. Caros, cheios de estrelas, carpetes, casas de banho privativas, cinzeiros e, ainda por cima, cheios de câmaras cctvês à porta que apenas servem para retirar o direito à privacidade.
4 – Pelo contrário, as pensões ilegais oferecem um conjunto de atractivos que os hotéis não possuem. Casa de banho comum ao fundo do corredor; camas de ferro, tipo camarata, que lembram aos mais saudosistas tempos de rigor; serviços sexuais mais baratos, mas sempre com a garantia inexcedível do Made in Macau; uma excelente oferta no serviço de quartos onde não falta a toalha, porém, sem direito a cinzeiro, já que o chão é logo ali, o que simplifica muito mais as coisas. A limpeza, por exemplo, destas UDR’s (unidades de dormida rápida) é simples, um lambaz e um balde de água fria chega para assear um prédio inteiro com mais de vinte andares, numa demonstração efectiva de como se poupam os recursos naturais.
Pensando bem, no complexo habitacional onde vivo, supostamente de luxo, o esquema é mesmo, no que respeita a limpezas, claro está, que quanto ao resto nem sequer desconfio. Parece que há para lá umas unidades a servir de armazéns, mas isso são outras contas de outro rosário.
Todos estes factos servem para recordar uma questão muito importante: as UDR’s são necessárias porque representam uma fonte essencial para a economia de Macau, caramba! Não se pode obrigar as pessoas a gastar dinheiro onde não querem, para isso já basta os impostos, o selo do carro, as multas de estacionamento e por aí fora.
Nem sequer vale a pena incentivar estes turistas a frequentar lugares que não sejam por si desejados, é um erro.
Então, o que fazer?
Em primeiro lugar há a necessidade urgente de sensibilizar toda a massa empresarial de Macau no sentido de repensar seriamente uma estratégia eficaz, e capaz de tipificar os reais interesses de quem nos visita e, a partir daqui, concluir com exactidão o tipo de instalação necessária para alojar todos estes milhões de turistas que teimam em visitar-nos.
Julgo não ser necessário fazer um estudo exaustivo da situação, basta indagar junto de quem nos visita para achar a solução. Um plano director seria exagero, e um desastre, que se arrastaria por umas boas décadas e Macau não está em condições de criar mais gabinetes de projecto por evidente falta de quem chefie.
É pública a escassez de terrenos para construção no território e a Ilha da Montanha poderá ser uma boa solução, a curto prazo, para a edificação destas unidades de dormida rápida que de certeza teriam grande sucesso. No entanto, os deputados, em vez de debaterem o falso problema das pensões ilegais, poderiam começar já a preparar um regulamento com vista a pôr alguma ordem nas futuras UDR’s.
O meu estatuto de residente permite-me a veleidade de dar algumas dicas sobre este futuro regulamento e, assim, temos:
1 - Cartão de identificação para o utente e o respectivo cartão de identificação para a mão-de-obra precária que o acompanhar.
2 - Não é permitido nas UDR’s um número superior a vinte pessoas.
3 - Nas UDR’s é completamente proibido jogar a feijões, podendo o prevaricador vir a ser detido e levado para uma unidade hoteleira de luxo, onde ficará a aguardar o apuramento da sua responsabilidade no desvio daquelas sementes.
4 - O utente responsabiliza-se a deixar as instalações em boas condições de asseio, ou seja, do mesmo modo como as encontrou.
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28 – O toque de alvorada é às seis da manhã. Como a fronteira abre às sete, sessenta minutos chegam perfeitamente para o utente molhar a toalha, passá-la pela cara e telefonar à família comunicando-lhe que mais uma vez não foi bafejado pela sorte e volta de bolsos vazios, como da última vez.
Entretanto, e enquanto não aparecem as tão desejadas UDR’s, aconselho os turistas a pernoitarem no Centro Internacional, ali para os lados dos serviços de imigração, ou nos Nova Taipa, cuja reputação... não sei mesmo se não está na net...
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