Director: Carlos Morais José
 

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Tu cá, tu lá

Margarida Cardoso, estudante

Carlos Picassinos --

A vida dela é um pêndulo. Ora cá, ora lá, e agora outra vez cá onde prossegue os estudos. Mas já lá vamos. Margarida Cardoso, princípios dos vinte anos, coisa assim, está com um pé entre dois mundos. Sempre esteve, desde pequena. O pai português, a mãe chinesa, há muito que convive com esta vida dupla. Dupla como quem diz. Os de Macau são assim, numa íntima diáspora. A de Margarida, começou aos doze anos quando foi para Melbourne, Austrália, que agora já não é Melbourne, Austrália mas “lá”, como se se tivesse tornado num dos quartos cá de casa. Nem sempre foi assim. A princípio aquilo de, menina e moça, sair de casa de seus pais, doeu-lhe. E não era para menos. Macau, Melbourne, é capaz de ser uma viagem da Terra à Lua. Em suma, custou-lhe. Terra estranha, australianos indiferentes, dependente das amizades e boas vontades familiares, compreende-se. “Melbourne era outra coisa. No início não gostava, porque não tinha amigos. Não falava bem inglês, e basicamente só me dava com a minha família, os meus tios, os meus primos. Os australianos não eram antipáticos mas também não eram particularmente acolhedores. Mantinham as distâncias. Talvez porque na Austrália exista toda aquela gente muito diferente” e ela passava “despercebida”.
Habituou-se. “A escola era mais fácil. O ensino”, explica, não as relações. “O ensino parecia mais fácil de perceber. Se calhar porque o meu português era muito podre enquanto cá estava”. Não era por nada, ou por outra, era porque “eu cá tinha amigos macaenses e quando saíamos falávamos mais o chinês”.
Ficou por Melbourne uns seis ou sete anos e como de costume nestes casos, primeiro estranha-se, depois já se sabe. Já adolescente feita voltou a Macau e foi o sentimento contrario. Regressou a custo, com resistências. Em suma, custou-lhe. Trocar Melbourne por Macau foi como sair da Lua e por os pés na Terra. Lá habituara-se a estar sozinha, sem a tutela dos pais, com as novas amizades de Hong Kong, da Tailândia e a respectiva liberdade que tinha conquistado. A cidade era fácil de perceber, de percorrer, com sítios para sair à noite, praia, muito calor. Voltar a Macau era “uma seca”, resume.
Mas voltou. Veio para a Universidade estudar Sociologia. “Hoje gostava de voltar para Melbourne”. É verdade que ficar aqui também foi uma opção de família. Não que tenha grandes perspectivas de emprego porque a Sociologia “não dá aqui muitas saídas”. Na verdade, Margarida gostava de ter estudado Psicologia, mas não conseguiu, e daí a Sociologia. Agora estuda Psicologia Social. Uma combinação das duas. Psicologia Social? “Explica a influência do meio no comportamento das pessoas. Eu já tinha estudado Psicologia no secundário. Acho muito interessante descobrir e aprofundar as razões que estão na base das nossas acções”. Por agora vai ficando por aqui, mas Margarida não deixa de pensar em sair. É que do futuro em Macau, não espera muito.