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| Artes mágicas |
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| | | Quase que por artes mágicas, de repente, volta a falar-se do sucessor de Edmund Ho, e com tal frenesim, que até parece que é alguma coisa que nos diz directamente respeito.
E, na realidade, diz-nos respeito sim senhora, só que esse respeito não passa pelo voto de todos os cidadãos de Macau. E o sucessor, aquele que vier a seguir, não será eleito com a participação popular, daí não entender a pressa em promover este ou aquele candidato a candidato a Chefe do Executivo.
Os pensadores-mor estarão cá para o escolher, numa sessão solene, à maneira e com direito a cobertura em directo pelos dois canais de televisão locais, fazendo deste acto uma verdadeira demonstração do ideal para-democrático.
Explicando-me melhor, o futuro Chefe do Executivo desta Região Especial será aquele que as altas instâncias do poder central melhor julgarem ter capacidades de gerir Macau, pelo menos nos próximos cinco anos, para depois voltar a ser reconduzido.
Isto quer dizer que, a seu tempo, a população ficará informada, mas não consultada, sobre a figura que irá comandar Macau nos próximos dez anos.
É um facto que não compreendo, esta aflição toda, este burburinho, à volta de personalidades que podem ou não podem vir a ser elegíveis para este lugar, porque até lá muita coisa há-de acontecer. Penso mesmo que antes de eleger seja quem for, será preciso arranjar uma posição de destaque na máquina partidária do ainda chefe do executivo, um lugar de vulto importante, de forma a compensar e reconhecer o esforço dispendido por Edmund Ho nestes dez anos. Sem que esse anúncio aconteça pelo meio oficial, ou pelo método do consta que, Macau poderá continuar a dormir descansado e sem perturbações de maior.
No dia da eleição o nome será servido de bandeja a toda a população que, reagindo de imediato, dirá que é a pessoa certa no lugar certo. É claro que tudo isto é independente de quem for o sujeito. As bocas abrir-se-ão de espanto e no final haverá palmas e o povo ficará orgulhoso com o que escolheram.
Acho que neste momento adiantar nomes é, no mínimo, pouco aconselhável e pura perca de tempo, já para não dizer que se trata de especulação, até porque, se houvesse a hipótese de sermos nós a escolher o futuro chefe, se calhar nenhuma das teorias apresentadas até ao momento caberia na nossa escolha e apenas tenho a certeza de umas coisas quanto à personalidade.
Assim, o futuro chefe será chinês, residente de Macau há mais sete anos, possuirá uma estatura mediana, terá provavelmente estudado numa universidade estrangeira de nome sonante, maior de idade, usará óculos ou talvez não, vestirá fato escuro nas ocasiões mais solenes e roupa casual quando se tratar de alguma marcha de caridade, andará pelas ruas de Macau de carro preto de vidros bem fumados com a escolta a abrir caminho. Terá como segurança igualmente um grupo de pessoas chinesas, igualmente de estatura mediana, vestindo também de escuro e usando aqueles óculos de sol impenetráveis onde nem o sol penetra, não dispensando os habituais batedores da PSP. Fará os discursos da praxe e se até lá as coisas não mudarem, apresentará na Assembleia Legislativa todos os anos as LAGs.
Em ocasiões especiais, como por exemplo, na visita a Macau de alguma figura importante do aparelho de Estado Chinês, as ruas ficarão desertas e o trânsito cortado apenas por razões de segurança e protocolo.
Ora bem, julgo que, embora minimalista, esta será a postura do novo Chefe do Executivo e, como já perceberam, muito diferente do que se passa actualmente. Entretanto, atingirá nos primeiros três meses de governação um índice de popularidade extraordinária e todos dirão, que sim senhor, este é o homem certo para o lugar certo.
Os mais eruditos e especialistas nestas matérias de divulgação de personagens afirmarão, após a eleição do Chefe, que esta é a pessoa exacta para ocupar o cargo que Macau tanto ansiava e sem ponta de dúvida a personagem capaz de provar que na realidade Macau continua a ser governado pelas suas gentes.
Sem dúvida, o politicamente correcto, usará um discurso conciliador e ao mesmo tempo continuará a promover a harmonia e o amor à Pátria, virá a desmistificar algum mistério sobre o artigo 23, apaziguando as almas mais periclitantes, promoverá a actuação da China junto dos países que se expressam em português e será o grande reformador dos grandes anseios da população.
No capítulo das infra-estruturas que Macau tanto necessita irá aparecer um novo hospital na Taipa, o Metro iniciará a construção, os autocarros serão geridos por duas empresas, que entretanto mudarão de cor, a rede viária será melhorada de modo a que o pessoal que gosta de correr o possa fazer num circuito diferente do GP de Macau e, o mais importante, a garantia que nenhum prédio terá mais de cem andares e que estes nunca virão a tapar nenhum monumento classificado, nem que para tal se tenha de fazer estruturas especiais ou colocar espelhos para que os turistas possam ver estas obras majestosas que são o orgulho da cidade.
Na área da educação tudo irá mudar e as escolas poderão, finalmente, ter um currículo diferente, à medida dos interesses da população, e as universidades formarão os seus doutores com um método antigo, mas ainda revolucionário, o da formação sem mestre.
A cultura viverá momentos sem precedentes na história de Macau e desta maneira teremos o festival de lanternas, um festival internacional de música, pelo menos um festival de artes, exposições de caligrafia chinesa e outros fartotes de encher o olho à populaça, fogo-de-artifício e o que mais vier a ser conveniente para alegrar este povo tão folgazão.
Quanto aos direitos humanos, dedicar-se-á especial atenção ao tráfico humano e à questão dos ilegais, sendo que aos primeiros ser-lhes-á dado à entrada no território crachás de cores conforme a sua proveniência e os segundos mostrarão na lapela apenas a letra I.
No campo das energias o novo Chefe tudo fará para que estas sejam as mais alternativas possíveis e, deste modo, teremos em alternativa à gasolina a gasolina, ao gasóleo o gasóleo, e ao gás natural naturalmente o gás. Quanto a este último, num futuro breve, e logo que de facto possa começar a assumir o seu mandato, terá como primeira medida o uso de esforços para que esta matéria inflamável deixe de aumentar escandalosamente, tentando que os preços sejam negociados ao nível dos anos setenta.
Com a população tão contente, vamos ter os portugueses a continuarem a não aprender chinês e os chineses a teimarem em dizer que aprender português não lhes serve para nada.
E para acabar, convém realçar a notável perseverança deste Chefe do Executivo, ao conseguir, no final do seu segundo mandato, e mercê de uma estratégia digna de registo, a negociação do governo com os empresários locais, na aprovação de um salário mínimo mensal, nunca inferior às duzentas patacas. Os mais críticos poderão dizer que é pouco, mas podem ter a certeza que será dado de muito boa vontade.
Até lá, caros cidadãos não vos preocupei-des…
*Por lapso, o texto de Pinto Fernandes publicado na edição da passada quinta-feira saiu truncado. Aqui publicamos a versão integral com um pedido de desculpas ao autor e leitores. |
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