Director: Carlos Morais José
 

--- 09-12-2009 ---
O desconfiómetro
Os dilemas de Copenhaga






O desconfiómetro

O mais certo é o leitor e eu não percebermos patavina das 1001 maneiras de ganhar dinheiro e fingir que se é feliz. Ganhar dinheiro sem sair de casa, ganhar dinheiro através da internet, ganhar dinheiro explorando mão de obra de outrém, ganhar dinheiro traindo, ganhar dinheiro mentindo, ganhar dinheiro denunciando, ganhar dinheiro aceitando algemas, ganhar dinheiro sem escrúplos. Ganhar dinheiro fácil, muito e rapidamente. Num abrir e fechar de olhos.
Se existe localidade onde há maior número de especialistas em amontoar fortunas colossais da maneira mais tranquila e, aparentemente, respeitada, essa localidade é Macau, região administrativa especialíssima. Que lhes faça muito bom proveito, quem não tem face é porque já a perdeu, porque já a vendeu, ou porque ou nunca a teve.
Parece que há muitos livros ensinando a ganhar uns dinheiritos. Alguns politicos profissionais – do passado, do presente e o mais certo do futuro - também nos vão ensinando, em teoria e na prática, que a economia pode ser um jogo indecente se aplicada às questões sociais, por exemplo. Segundo as bestas em forma de gente, tudo tem de dar lucro, dos hospitais às escolas. Quando assim não é, toca a colocar no desemprego, não os barões responsáveis por péssimas gestões, mas os que dão o lombo para sobreviver e continuar no sonho de melhores dias.
Dinheiro maldito. Dinheiro do lucro das baixas políticas e dos baixos politicos. Dinheiro de todos os tráficos, de todas as chantagens, de todas as trambiquices incluindo as maiores e mais permitidas, praticadas pelos maiores canalhas. Impunes, quase sempre, se não servirem de isolados bodes expiatórios. Porque parece que parece mal meter atrás das grades peixe graúdo. O dinheiro quando nasce para financiar trambiquices e trambiqueiros, pode não ter sido contaminado por vírus, mas é amaldiçoado.

2. Falando bonito, que a comercialona quadra do Natal já está aí com toda a sua exuberância interesseira. Possivelmente, grande parte das vezes não reparamos, mas há dinheiro muito mais bonito que outro. O Prezado leitor já notou que há moedas e notas que agarram a nossa atenção. Bom, nos últimos anos, com essa coisa da “moeda única europeia” desapareceram de circulação algumas das notas e moedas esteticamente mais bem conseguidas que é possível conhecer. A actual moeda “euro” nem sequer é apelativa do ponto de vista artístico. Ao contrário, repare o leitor na nota em vigor em S. Tomé e Príncipe, por exemplo. É uma nota com classe, na sua fusão artística e tecnológica, nos esquemas da cor e dos tons, nas referências culturais. Uma cédula de categoria.


3. Se fosse dita como anedota, até poderia ter alguma piada, mas a coisa anunciada oficialmente como decisão social de monta, acaba por transmitir uma sensação mista de nojo e raiva. O governo de Portugal, reparando que o salário mínimo era muito curto, reuniu o conselho de ministros para estudar profundamente o injustíssimo fenómeno. Deve ter sido longo o debate ministerial, mas saíu de lá obra de vulto; ou seja, 25 euros de aumento sobre os 450 até aqui. Não foi uma brincadeira de mau gosto, foi mesmo assim – a realidade foi bem pior do que o pior pesadelo.
Os desgraçados e desgraçadas que para sobrevirem só dependem do salário mínimo ou próximo disso, já podem respirar aliviados com tanta preocupação social do governo de Portugal. Vinte e cinco euros! Não dão nem para uma bica por dia, nem sequer uma carcaça, muito mernos um pastelinho de Belém para adoçar tanto amargo de boca. Este exemplo do entusiasmo social do governo de Lisboa nem sequer é o mais significativo. Os pecados maiores, os buracos negros ficam mais abaixo.

4. Das coisas mais naturais da vida é as pessoas gostarem de saber o que pensam, do que gostam e porquê, os seu governantes. Que livros andam lendo, que músicas ouvem, que artes preferem, que espectáculos apreciam assistir sem ser os que o protocolo desgraçadamente obriga a comparecerem. É verdade, as pessoas também apreciam saber que inquietações, que alegrias, que apetites culturais, que bases programáticas ou ideológicas, que sinceras esperanças ou inspirações habitam no espírito de quem as governa. Uma forma de melhor conhecer, apreciar e respeitar – não escrevo amar, guardo isso para os viciados em vénias ao grande líder – os governantes.
Quando nada destas singelas coisas sabemos, mesmo nada, liguemos o desconfiómetro.