Director: Carlos Morais José
 

--- 23-05-2006 ---
A epopeia do tremoço: o regresso ao futuro
Dia Mundial da Alegria






A epopeia do tremoço: o regresso ao futuro

“Embrulhado numa manta tecida
Por minha mãe com lã da nossa ilha
Esperava em conforto a nossa ceia
Quase cozida, em tachos na lareira.
Era o caldo de couves e batata
E bolo ainda morno, cheirando
A milho recentemente colhido
Da nossa nisca ao pé do Pico Grande.
E leite quente da nossa cabra amiga
Que foi menina um dia, que brincava
Comendo bocas cheias de tremoço
Olhos dourados a fitar os meus”.

in “Poesias”, de Alfred Lewis

É vendido em qualquer feira que se preze e tem presença indelével na mesa portuguesa. Também chamado de “marisco dos pobres”, o tremoço é o companheiro ideal e inseparável da cerveja e do tinto. Actualmente, perde terreno para apetitosos salgados e os mais desvairados aperitivos que enchem as mesas de todos os restaurantes. O tremoço tem aplicações muito variadas que vão da alimentação humana e dos animais, ao enriquecimento dos solos, à indústria farmacêutica e à fitoremediação dos solos, zelando pela integridade do nosso ambiente.
Dizem os botânicos que o tremoço é ubíquo. Da Algéria até ao Egipto, passando pela Líbia e Tanzânia, Índia, China, EUA, na Europa em geral, na Bielorrússia e mesmo os nossos antípodas o conhecem. Em 2005, a produção mundial de tremoço foi de 1.2 milhões de toneladas (FAO, 2005), das quais Portugal apenas produziu 11. O maior produtor mundial de tremoço é a Austrália com cerca de 82% do total, seguida do Chile (6%), Federação Russa (3%) a Polónia (2%) e França (2%)..
Lineu (Linnaeus) deu-lhe o nome de Lupinus albus e por essa razão nos países anglo-saxónicos, e, em geral, na maioria dos outros países, é denominado de “Lupin” ou “Lupine”. Em Espanha é apelidado de altramuz..
Os historiadores e arqueólogos rezam que foi há cerca de três mil anos, no tempo do faraó “Menes”, que o cultivo do tremoço foi pela primeira vez referido. Outras fontes referem também os Incas, mil e quinhentos anos mais tarde. Dada a facilidade de crescer em solo arenoso, foi indevidamente qualificado como empobrecedor do mesmo. Tal facto só mais tarde seria esclarecido por Plínio, no seu livro “Historia Natural”, em que o recomendava para o enriquecimento dos solos vinhateiros, evitando dessa forma a utilização do adubo e os inconvenientes associados. Por essa razão o tremoço é também denominado de adubo verde ou “green manure”.
Durante o império Romano, o tremoço subiu ao palco, entrando em cena como adereço, servindo de moeda de troca nas sátiras e comédias latinas. Mas foi com Plínio que o cultivo e o seu potencial nutritivo e medicinal seriam divulgados. O autor refere que o tremoço tem de ser demolhado e fervido para purgar uma substância alcalóide (lupanina) que lhe confere um sabor amargo. Feita a preparação, o tremoço é alimento de eleição, em regra, beneficiando quem dele se alimenta, prevenindo a ocorrência ou mesmo tratando certas enfermidades.
Foi mais tarde, já em pleno século vinte, entre a década de 20 a 30, com os alemães e com o esforço de um contemporâneo de Hitler, Reinhold von Sengbusch (1898-1985), que se procedeu ao melhoramento do tremoço, dado o seu potencial agrícola na preparação dos solos para o cultivo do milho, melão e trigo. Por outro lado, a selecção de variedades permitiu a sua utilização na alimentação dos animais de forma massiva e a sua introdução como aperitivo, provavelmente, pela mesa das populações rurais.
Mais recentemente, em 1999, um estudo do Food Policy Institute ("Feeding the world in the next millennium:", IFPRI, Consultative Group on International Agricultural Research, 1999), estimava que a produção agrícola tinha de acompanhar a redução da superfície agrária útil e o crescimento exponencial do sector da pecuária. Fontes alimentares alternativas à soja tinham que ser identificadas.
A vantagem do tremoço está relacionada com a sua capacidade de fixar o azoto e de crescer em zonas em que a planta de soja não sobrevive. Assim, um incremento da produção de leguminosas em cerca de 40 a 50% seria atingido. Este incremento faria face à redução da superfície agrária útil e ao crescente número de animais que comem forragem. Acresce que, ao contrário da soja, o tremoço não apresenta substâncias que possam prejudicar o seu valor nutricional (factores anti-nutricionais) e, assim, a produção à escala industrial é menos onerosa.
O género Lupinus tem composições nutricionais ligeiramente diferentes para as duzentas espécies existentes. Em regra, a composição nutricional é a seguinte: 36-52% de proteína, 5-20% de gordura, 30-40% de fibra alimentar.
Da proteína salienta-se o seu alto valor biológico, o que permite considerar o tremoço como fornecedor de proteína da dieta. No que diz respeito à gordura, a sua composição é, na sua grande maioria, ácido oleico e linoleico (gordura presente no azeite), constituindo 86% da gordura total. Acresce que tremoço possui três vezes mais fibra do que a aveia e o trigo e, dessa fibra, a sua grande maioria tem a capacidade de reter o colesterol no intestino e facilitar a sua eliminação nas fezes. O teor em amido também é reduzido, o que esclarece o papel deste alimento no controlo do índice glicémico (teor de açúcar no sangue) amplamente divulgado na literatura científica.
Comparando-o com as batatas fritas ou as pipocas, o tremoço traz vantagens incontestáveis. É mais nutritivo e muito menos calórico. Os tremoços têm, em média, 1/6 das calorias, por peso dos outros aperitivos. Por exemplo, 100 gramas de amendoim equivalem, aproximadamente, a 600 gramas de tremoço. Até para os vegetarianos, o tremoço apresenta-se como mais uma leguminosa de opção, aumentado o leque de escolha dos fornecedores de proteína da dieta humana.
A implementação do tremoço na cadeia alimentar é bastante ampla, desde a produção de farinhas para peixes de aquacultura e para mamíferos, como fonte de proteína e fibra, e, ainda, para a indústria dos suplementos alimentares. Por causa das suas características químicas, a farinha de tremoço também é utilizada na produção de bolachas, pão, biscoitos, massas, assim como na indústria farmacêutica.
Não abundam referências gastronómicas à preparação culinária utilizando tremoços, com excepção de uns “risotos” e de algumas confecções germânicas. Tal facto, poderá ser explicado pelo melhoramento recente que permitiu o consumo humano. Mas é neste contexto que o tremoço oferece uma alternativa nutritiva e saudável aos fritos e amendoins em regra servidos nos restaurantes.
A União Europeia está envolvida num estudo para a utilização das farinhas de tremoço para o enriquecimento nutricional de alimentos e existem outros estudos que comprovam a sua acção na redução da quantidade de colesterol no sangue, no controlo do apetite, no controlo dos níveis de açúcar no sangue, na atenuação dos efeitos da obstipação intestinal e por último, em consequência dos anteriores, na redução da incidência da obesidade na população.
Por todos estes motivos, considero que o tremoço é um aperitivo de irrepreensível valor nutricional, não fosse o português abusar do sal no seu tempero. Para retirar este excesso basta lavá-lo bem ou demolhá-lo até que o mesmo se dissolva. Se preferir adicione à água de tempero alho e ervas aromáticas tais como os orégãos. Aguarde umas horas e veja o resultado.
Em suma, desde os tempos mais remotos que o tremoço ocupa um lugar de destaque na alimentação animal e, mais recentemente, na alimentação humana. Numa altura em que se discutem as vantagens e desvantagens dos alimentos geneticamente modificados ainda existem culturas que dos solos pobres fazem riqueza e com isso enfeitam a nossa mesa com pipetas de ouro mascaradas de marisco.