Na passada quinta-feira saí do meu escritório no NAPE exactamente às 12h25 para ir almoçar. Saí já equipado mentalmente para encarar e enfrentar a chuva que ininterruptamente caía em Macau há mais de três semanas. Duvido que tenha sido o único a sentir aquela irritação de olhar todas as manhãs pela janela do quarto e constatar que o tempo não mudara desde a noite anterior. Essa irritação sentia-se por toda a parte. Eu pelo menos sentia. Confesso não saber bem se não estaria a projectar a minha frustração nos outros, mas que sentia que o mundo estava irritado, ai isso sentia. Estive seriamente a pensar em tornar-me devoto do deus egípcio Rá… Talvez ele tivesse mais influência que o incompetente do São Pedro que, já que não fez o seu trabalho como deve ser, ao menos que tivesse colocado uma algália naquele céu incontinente.
Estava eu a dizer, que quando eu saí para o meu almoço já armado do meu 6º guarda-chuva desde que o dilúvio iniciara, reparei surpreso que não chovia. Não chovia! NÃO CHOVIA! Mais, reparei que por detrás das nuvens ainda de cor cinza, aparecia uma cor de que já não me recordava que existia. Bastava-me prenunciar mentalmente a palavra cor para me fazer sentir feliz. Quando recordo estas últimas semanas, recordo-as a preto e branco. Pois além dos céus nos terem enchido de água ao ponto de já ter sonhado que me estavam a crescer no pescoço um par de guelras, também nos roubaram a cor. É verdade, os céus roubaram-nos o sol e este partiu levando consigo as nossas cores. Devem-se recordar que houve dias em que às duas da tarde parecia que era hora de ir jantar. Tudo se tornou sombrio e o mundo ganhou uma escala de cinzentos digna de uma fotografia de Ansel Adams.
Mas, na passada quinta-feira, quando pisei a calçada, senti-me como a Trinity no Matrix Reloaded quando ela acompanhou Neo na última investida contra a Cidade das Máquinas numa tentativa desesperada de salvar Ziohn; quando tentavam escapar a um batalhão de robôs assassinos, elevam a sua nave acima dos céus outrora queimados pelo Homem e, pela primeira vez na sua vida, vislumbra o Sol e a tal cor de que não me recordava que existia.
Foi o êxtase! Parecia que tinha sido abençoado pela Luz! Foi uma verdadeira epifania!
Alterei a localização onde tinha planeado almoçar e fui processar a fotossíntese numa das esplanadas do Fisherman´s Wharf.
Enquanto comia, e a minha pouca vitamina D começara já a agradecer o facto de me ter sentado numa mesa ao sol, constatei que me surpreendo constantemente ao me aperceber como a natureza humana é imbecil! Desculpem-me… vou corrigir a frase: surpreendo-me como a minha natureza é imbecil! É que eu tenho este habito de só me aperceber do valor das coisas quando as já não tenho. Chamar a isto de imbecilidade acho que é ser muito brando…
O Sol e a tal cor que o enquadra, e de que não me recordava que existia, só foram por mim valorizados quando me apercebi que não usufruía da sua influência há dias e dias.
Não deixei porém de me recordar de um incentivo carinhoso que um dia recebi de Tulku Pema Wangyal Rinpoché. Nessa época encontrava-me completamente desalentado, tinha muito pouca perspectiva. O meu casamento que acabara e, profissionalmente, um caos… Tudo na minha vida estava sombrio, tal como o tempo em Macau nestas últimas semanas.
Foi então que Rinpoché me explicou que, mesmo que eu só consiga me aperceber das nuvens escuras e tempestuosas, não quer dizer que o Sol pare de brilhar por detrás delas. Falou-me então do princípio da impermanência de todas as coisas e do mecanismo racional que podemos utilizar para podermos suportar melhor as contrariedades da vida.
A impermanência é um conceito lógico que ninguém pode negar: o que sobe há-de voltar a descer; o que hoje está quente amanhã terá arrefecido; o tempo chuvoso de uma manhã é uma recordação longínqua nessa mesma tarde soalheira.
Nada dura para sempre. O que tem início também encontrará um dia o seu fim. O sofrimento dará lugar a momentos felizes mas também estes não ficarão para sempre e mais tarde ou mais cedo haverá algo que os fará transformarem-se no seu oposto.
Tal como Yin Yang 1, que se movimentam num perpétuo ciclo de geração e controlo, um dando origem ao outro, o início de um é o fim do outro e o fim de um é o início do outro.
Este princípio é o que me faz levar a vida com alegria. O pensar diariamente na impermanência faz com que todo o mal que me sucede, mais tarde ou mais cedo, acabe e tudo o que me é bom também. Assim consigo aceitar, ou antes, procuro aceitar melhor a natureza de tudo. O pensar na impermanência como uma prática quotidiana mantém-me alerta no presente, mantém-me focado naquilo que realmente interessa. Se estou mal, qual o melhor caminho para me pôr bom? Se estou bem, qual o processo para me manter bem o maior tempo possível?
Se estou com os meus filhotes a brincar, se estou com aqueles de quem gosto, se estou a praticar tai chi, ou simplesmente a cozinhar, procuro estar presente no momento e usufruir daquele tempo plenamente, evitando assim, ser o imbecil que habitualmente sou.
Este princípio tem benefícios incalculáveis. Aplicado ao meu trabalho, por exemplo, os resultados são duma eficiência extraordinária. Fico com uma perspectiva global da tarefa, dando-me a possibilidade de antecipar falhas e erros, tirando assim, o máximo desempenho da minha performance e daqueles que lidero, isto é, máxima eficiência com o menor esforço possível.
Não é por acaso que o Ocidente procura hoje na sabedoria antiga do Oriente ajuda e inspiração para melhorar as suas aptidões. Tratados como a “Arte da Guerra” de Sun Tzu, o “Livro dos Cinco Anéis” de Miyamoto Musashi, ou mesmo o ancestral “Código do Samurai”, o “Bushido”, são hoje traduzidos, comentados e interpretados como meio para formar o melhor “caminho” daqueles que ambicionam subir numa hierarquia, aplicando nos seus quotidianos as estratégias e atitudes comportamentais desses tratados, seguindo assim, os passos dos pioneiros do Wudao 2.
Infelizmente na passada quinta-feira o sol foi novamente tapado pelas nuvens às 14h23 e às 14h52 os céus castigaram-me pelas injúrias proferidas e pensadas cerca de duas horas antes.
Mas dessa vez saboreei a chuva de um outro modo: agradeci aos céus a lição recebida, mas lamentando profundamente ter deixado o guarda-chuva com o porteiro do prédio.
1 O Yin Yang, é uma teoria de comparação relativa em que nada é analisado sem que tenha uma referência de comparação. É uma teoria dualista, em que os seus dois lados, o Yin e o Yang, estão intimamente ligados. Trata-se de uma perspectiva do mundo em que a observação da “natureza das coisas” leva o indivíduo a conhecê-las e compreendê-las ao ponto de aceitar a ordem natural da vida. (Yin Yang - 2ª parte; Hoje Macau n.º 1654, de 9 de Junho de 2008)
2 Wudao 武道, a “Via Marcial” (comummente conhecido pela sua versão japonesa: Budo). O carácter 武 wu representa a noção do marcial como metodologia e disciplina. O carácter 道 dao significa “a Via”, “o Caminho” enquanto conceito. Assim, Wudao é uma metodologia específica para se percorrer a via de uma determinada arte, que tem como objectivo último transcender a sua função imediata e pragmática, alcançando o universal através do particular. (Dao - O Caminho; Hoje Macau n.º 1639, de 19 de Maio de 2008)
* Arquitecto, Fotógrafo e Estudante de Artes Marciais Chinesas