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| Júlio Pereira, em entrevista ao Hoje Macau, abre o livro da sua vida e disseca o acto solitário de fazer música | | “Fazemos parte de uma cultura de ombros descaídos” |
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Diz que Portugal é um país sem garra nem orgulho, que é horrível ser filho único, que já teve que faltar a um concerto para levar o pai ao hospital. Gosta mais de pessoas do que de música, é um bocado teimoso, “mau feitio”, como lhe chamava a mãe. Pela primeira vez na vida, diz, está a ter prazer em tocar ao vivo. Para confirmar hoje no Teatro D.Pedro V em espectáculo inserido no FIMM
José Manuel Simões
Terceira vez em Macau, Júlio Pereira decepcionado com o que encontrou?
Estou atentar ambientar-me mas é um facto que senti falta de espaço. Há muito ruído. Macau não era propriamente um sítio muito grande mas mesmo assim bastante respirável. Da primeira vez que estive aqui tive um flash. Abri a cortina do quarto e vi um junco chinês. Essa imagem ficou-me gravada na memória. E agora, parece que ando há procura do junco e nunca mais o vi. Sinto tudo fechado, não tenho perspectiva nem espaço para ver. Felizmente que já não encontrei aquela placa que estava à saída do jetfoil e que dizia: “Proibido cuspir. Multa de 500 escudos”.
Pouca gente sabe isto mas, em 1982, foi dos primeiros músicos em Portugal a usarem computador para fazer música. Lembra-se? No tema “Galinhas do Mato”, do Zeca Afonso, fez uns arranjos com o primeiro software criado pelos japoneses.
Que lembrança fantástica. Era um interface midi para o Apple.
Que valores mais preza na vida?
Pessoas. Gosto mais de pessoas do que de música.
De quem é que herdou os olhos verdes?
Da minha mãe. São verdes acastanhados, acastanhados verdes. São uma espécie de camaleão.
Também é uma espécie de camaleão?
Não. Sou um bocado teimoso. Uma espécie de personalidade um bocadinho brutinha. Mau feitio, dizia a minha mãe.
E é também um solitário? No seu último disco, “Geografias”, e pela primeira vez, toca acompanhado. A sua música é, invariavelmente, fruto desse acto solitário?
Essa coisa de ter jeito para tocar cordas desde crianças acabou muitas vezes por me arranjar alguns conflitos, nomeadamente nos espectáculos ao vivo.
Fala de discussões com outros músicos?
O facto de construir um disco onde tocava todos os instrumentos fazia com que, quando partia para os concertos, tivesse uma dificuldade muito grande em buscar músicos para tocarem instrumentos que eu mesmo tinha tocado. Ora, por mais que os músicos fossem bons eu nunca gostava do resultado.
Isso tem a ver com o facto de ser filho único?
Esta coisa de ser filho único é uma chatice. Ainda hoje sou muito caseiro e faço muitas coisas sozinho. É obvio que transportei isso para a música.
Todavia — constatei ainda agora no ensaio — neste disco descobre o prazer de tocar ao vivo.
Posso afirmar que é o primeiro ano da minha vida em que gosto de tocar ao vivo.
Isso, para alguém que sobe aos palcos desde os seus oito anos, deve ser algo doloroso...
O meu pai gostava de mostrar o filho prendado que tinha...
Um pai babado?
Não, não. O meu pai odiava essa coisa de eu ser músico. Dei-lhe o maior desgosto e ele só me aceitou enquanto tal quando, em 1980, faço um disco chamado “Cavaquinho” que obteve todos os prémios do país. Durante meses a fio aparecia todos os dias nos jornais e os amigos do meu pai molestavam-no com comentários do género: “olha o teu filho, olha o teu filho”. Finalmente rendeu-se.
Foi por ser filho único que durante alguns anos deixou a sua carreira de lado para cuidar dos seus pais.
Foi uma inevitabilidade. Um azar. Adoecerem os dois exactamente no mesmo ano.
Certa vez faltou a um concerto porque foi com o seu pai para o hospital. Foi uma decisão dolorosa?
Foi horrível. Aí percebi claramente que ser filho único é realmente muito chato.
Certa vez disse que “Portugal é um país sem garra nem orgulho”. Mantém essa ideia?
Somos sempre como somos, e nós, portugueses, fazemos parte de uma cultura de ombros descaídos. Isso passa muito pela nossa timidez, pela nossa maneira de ser que não é de todo extrovertida. É uma espécie de inevitabilidade ancestral.
“Os poderes todos, desde o 25 de Abril, gostam de fazer peito com o património mas esquecem os músicos”, afirmou. Como é que explica isso?
Desde o 25 de Abril que o nosso país vive numa espécie de atitude que não articula as academias de música com as realidades locais. O fado impôs-se no mundo graças a pessoas como o Carlos do Carmo que lutou muito para o fado chegar até onde está hoje. Aliás, por norma, tudo o que é construído em Portugal é pela carolice de alguém. Quando o Carrilho foi Ministro da Cultura levou uma série de artistas a Foz Côa. Lembro-me de estar lá em cima em Trás os Montes a olhar para aquelas paisagens e de repente dar comigo a pensar que estávamos ali a defender umas gravuras com 30 mil anos enquanto deixávamos morrer a gaita de foles.
Fez um pedido ao Ministério da Cultura no sentido de criar uma escola de música para desenvolver o estudo de instrumentos musicais tradicionais. Porque é que essa ideia não foi em frente?
O subsídio que me queriam dar era tão ridículo que eu desisti. Por exemplos destes é que o Ministério da Cultura foi perdendo oportunidades que já tinham sido começadas por alguém e que no fundo era só dar continuidade a algo que a experiência demonstrava que já estava a dar resultado.
Falávamos do seu prazer no acto solitário de fazer música. Todavia, ao longo da sua vida tem inúmeros exemplos de partilha com outros músicos, como são os casos dos Xaranga, dos Petrus Castrus, do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Fausto, do Zé Mário Branco...
Estou a falar de uma cultura, portanto da maioria. Aliás, a regra faz a excepção. Tive a sorte de trabalhar com esses que se destacaram sem qualquer sombra de dúvida porque deram um contributo absolutamente gigantesco e, sobretudo, a meu ver, deram a conhecer o que era a música tradicional do meu próprio país. Estamos a falar no PREC que, até à altura, ninguém conhecia. Nem eu. Apesar do meu pai me ter ensinado a tocar bandolim com oito anos de idade, tenho que dizer que, aos 20, ainda não conhecia a música tradicional do meu país.
Indigna-se quando lhe chamam “o homem do cavaquinho”?
Jamais. Sempre fui músico. Primeiro, entre os 10 e os 20 anos, de rock; entre os 20 e os 30, trabalhei com todos os nossos compositores intelectuais e fiz discos a solo. Porém, na realidade, quando cheguei aos 30 anos não era conhecido. O que me tirou do anonimato foi o disco “Cavaquinho” que resultou num boom nacional. Daí essa designação.
Certa vez disse-me: “tenho percebido que os jovens são muito mais solidários do que os da minha idade”. Tem a certeza disto?
Pode ser que seja uma observação um bocado pessoalista. Aceito que seja. Posso não ter razão nisso até porque havia muito mais ignorância quando eu era jovem. Falo no que se refere à música, área em que não se era muito solidário. Hoje em dia sinto que a juventude partilha muito mais cedo a amizade e a cumplicidade. Ao viver-se de uma forma mais livre criam-se outras solidariedades.
É verdade que considera que o instrumentista não deveria ser emocional quando toca?
Essa frase só tem a ver comigo.
É nesse sentido que afirmou que “não há instrumento que aguente um dono inseguro”?
Isso é quase como ter a sensação de que se estiver nervoso toco mal e se estiver calmo toco bem. Então faz sentido dizer essa frase.
O que espera deste concerto em Macau?
Este é um sítio que é muito fora de tudo. Tem um contexto muito próprio, vive num acto de mudança muito grande, de algum modo aquilo que é português vai acabando. Dá-me a sensação que, desde que isto deixou de ter administração portuguesa, muito provavelmente é esse caminho que seguirá. Não imagino o cenário nem a perspectiva das pessoas, nem como é que elas filosoficamente sentem a nossa cultura através da nossa música. Não imagino como seja. Portanto, só espero que as pessoas gostem. A única coisa que faço em ir tocar fora de Portugal é dar uma amostra da música que faço. Uma música que vai buscar coisas aqui e ali e que, de algum modo, diz respeito ao que é o sentir português. |
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