Director: Carlos Morais José
 

--- 24-10-2008 ---
Oportunidades em tempo de crise
Orçamento sem crescimento
Três dias de negócios
Contratos iguais para todos





Especulação imobiliária está a ser travada e há desvalorizações que atingem os 40 por cento

Oportunidades em tempo de crise

Desengane-se quem espera ver a actual crise financeira pressionar os preços do imobiliário até aos valores de há dez anos. Mas em tempos de crise, devem ser aproveitadas as oportunidades. E que as há, há.

Joyce Pina

Quem viveu em Macau no fim da década de 1990 sabe que podiam ser comprados apartamentos ao preço ‘da chuva’. E houve quem tivesse aproveitado tornando-se no feliz proprietário de dois ou até três apartamentos. ‘Sorte’ - dirão uns. ‘Bom olho’, dirão os mais atentos às movimentações do mercado imobiliário. Comum também é ouvir a ‘velha guarda’ dos residentes em Macau, aqueles que cá estão há quase dez anos ou mais dizer: “Se soubesse, teria comprado”. Agora tudo mudou.
Nessa altura, podiam ser comprados, por meio milhão de patacas, apartamentos na Taipa ou em Macau. Era uma época em que as rendas na Areia Preta não passavam das 1500 patacas por mês e os Ocean Gardens, na Taipa, pouco convenciam. O complexo, também parte dos ‘Oceans’, ao lado do restaurante Beewee, à saída da Ponte Nobre de Carvalho, para quem vem de Macau, era das melhores coisas que havia no mercado em termos de habitação.
As rendas que começavam nas 30 mil patacas por mês. “Uma fortuna para aquela altura”, recorda uma residente permanente de Macau, de origem portuguesa, que trabalha para a função pública. “Eram os Ocean dos ricos, assim se chamavam, porque regra geral só lá vivia quem tivesse casa paga pela empresa e, claro, eram os grandes executivos”.

Fim de um sonho

Com o fim do monopólio do jogo e a recuperação da crise financeira asiática, no início de 2002, o barato começou a sair caro. “A culpa é dos expatriados norte-americanos e australianos”, diz a residente. “Vêm para cá com ordenados elevadíssimos e com subsídio de renda e pagam o que lhes é pedido, sem discutir os preços”.
Entre 2002 e o início deste ano, apartamentos que eram alugados antes por três mil e quinhentas patacas ou quatro mil passaram a sete mil patacas por mês. Fong, agente imobiliária com especial predilecção pela Taipa indica: “Nos Oceans Gardens, por exemplo, dois quartos e uma sala, sem grande vista, podiam ser alugados por quatro mil patacas. Estamos a falar de uns 800 pés quadrados de área. Agora, os senhorios estão a pedir sete mil. É normal, é um sítio muito procurado pelos estrangeiros”. Cem pés quadrados são cerca de 9,3 metros quadrados.
Para Fong, o facto de muita gente estar a mudar-se para Macau para trabalhar nos casinos faz com que a procura aumente ‘como nunca’: “Não se encontra nada para alugar nessa zona [dos Ocean] porque as pessoas não querem deixar as casas e quem compra é para usufruto próprio, não para especular. Os senhorios que compraram como investimento não se importam de alugar, claro que não, mas o inquilino que já lá está não quer sair”.

Esperar para comprar

Apesar de estar tudo mais caro, a actual crise financeira mundial serviu para arrefecer a especulação. Para um responsável da Midland Macau, agência imobiliária dedicada ao mercado de luxo e semi-luxo em Macau, “desde que se começou a falar na crise financeira que os preços localmente sofreram um pequeno “abanão”. No entanto, as propriedades mais afectadas, para já, foram as do mercado de luxo. Em alguns casos houve quebras de 40 por cento”.
O responsável da Midland recordou que o projecto, por concluir, One Central, está a ser alvo de transacções muito abaixo das oito mil patacas por pé quadrado registadas no início do ano: “Havia apartamentos a serem vendidos a oito mil patacas o pé quadrado e agora estão a 4800 patacas. E não é um mau preço, porque os investidores compraram a quarto mil patacas o pé quadrado. Quem comprou apenas pagou trinta por cento do valor total do investimento. O resto terá de ser pago depois, mas se entretanto conseguir vender, mesmo que por menos 40 por cento, continua a fazer um excelente negócio”.
O caso da One Central é especial, porque a seguradora islandesa que comprou uma das torres do projecto, a Torre 4, teve de colocar à venda os apartamentos para recuperar dinheiro para evitar a falência.
“Para apartamentos que estavam a ser vendidos por milhão e meio de patacas, ou menos, no início do ano, os valores mantêm-se porque não são propriedades que os investidores cobiçam. São casas que as pessoas compram para viver nelas. Nesse sector, os preços não mudaram muito”, acrescenta o responsável da Midland.
Chegou a altura de comprar? “Ainda não”, diz o agente imobiliário. “Eu aconselhava os potenciais compradores a estudar o mercado e depois comprar. No início de 2009, por exemplo, porque talvez os preços baixem ainda mais”.
Para o agente, “no mercado de habitação própria não se esperam grandes variações nos preços, embora a crise já se tenha reflectido no sector das rendas”.
Fong sublinhou que “para os apartamentos com preços de venda inferiores a três ou até quatro milhões de patacas, as quebras foram, até agora, de 10 a 15 por cento. É significativo, mas não é razão para provocar uma corrida às casas”. E acrescenta: “Na Areia Preta, por exemplo, as rendas rondavam duas ou três mil patacas há quatro ou cinco anos, mas aumentou tudo. E agora, devido aos novos projectos residenciais como o La Cite, a tendência é para que aumentem ainda mais, no entanto, com a crise, parece-me que houve uma estabilização dos preços”.
No La Cite, “apartamentos com três quartos estão a ser alugados por nove mil patacas, no mínimo, mas têm piscina, ginásio e zonas de lazer”, recordou Fong, acrescentando de seguida: “Na Barra, junto aos prédios mais antigos frente às ponte-cais, há apartamentos antigos, com áreas muito boas, como do La Cite, por quatro ou cinco mil patacas, mas não têm ‘standing’”.

Casas que por aí ‘andam’

De acordo com os preços divulgados pela revista de distribuição gratuita Macau Property Centre, na edição de Outubro, um apartamento junto às Ruínas de São Paulo, com 550 pés quadrados (cerca de 50 metros quadrados), está a ser vendido por um milhão e meio de patacas. Um outro apartamento, no empreendimento Nova Taipa Garden, com três quartos estava a ser vendido por quatro milhões e meio de patacas. Fong sorri, já que o negócio parece ser ‘bom’: “O das ruínas tem o seu charme, está ao lado d um monumento classificado pela UNESCO, mas na Nova Taipa Garden duvido que se venda facilmente”. Porquê? “Nos últimos anos os apartamentos nesses prédios têm sido alugados aos trabalhadores das obras dos casinos ou a funcionários de base de casinos. Há apartamentos que são alugados por cinco ou mais pessoas! Muitos inquilinos, e aí vivem muitos portugueses, queixam-se disso e estão a sair”. As rendas, no entanto, não são baixas: “Esses apartamentos com três quartos são alugados por oito, nove ou mesmo de mil patacas! Mas a vizinhança começa a causar preocupação...”

A outra versão

De acordo com dados estatísticos divulgados pela Centaline (Macau) Property Management, também agência imobiliária, o mercado de habitação de luxo desceu entre 30 a 40 por cento nos últimos meses e os preços dos apartamentos em segunda mão desvalorizaram entre 25 e 30 por cento.
Vincent Ip, presidente da Associação Geral do Sector Imobiliário de Macau, em declarações ao Hoje Macau, mostrou-se preocupado com a situação geral do sector: “A recessão económica pode durar um ano, pelo menos, e agravar-se ainda mais se o Governo não impor medidas para salvar o mercado”. Marilda Lau, gestora da Centaline, indicou ao Hoje Macau que “os preços do mercado imobiliário em segunda mão desceram 25 por cento quando comparados com os valores máximos atingidos no final do ano passado”. E no que toca ao mercado de luxo, o cenário não é diferente: “Por exemplo, no NAPE, o preço dos apartamentos desceu até 50 por cento! Estamos a falar de oito mil ou oito mil e quinhentas patacas por pé quadrado para quatro mil ou cinco mil patacas por pé quadrado”. “E na Areia Preta’, acrescentou, ‘o preço por pé quadrado desceu de seis mil patacas para as três mil e quinhentas”.
Vincent Ip sublinhou que “os apartamentos vendidos antes a preços superiores a três milhões de patacas valem agora menos 25 por cento, e os que valiam até dois milhões perderam, regra geral, entre 10 a 20 por cento do seu valor”.
Fond não se deixa impressionar por estes números: “Depende sempre do local e do estado do apartamento. Mas se considerarmos que a vinda dos estrangeiros fez aumentar tudo, se calhar estamos agora perante o valor real das propriedades”.
Para Ip, as restrições aos vistos individuais é uma das razões pela qual o mercado imobiliário está a sofrer. Por outro lado, “já que ninguém sabe onde esta crie vai parar, os compradores fecham os cordões à bolsa”.
Um residente permanente português contactado pelo Hoje Macau que beneficiou grandemente com a crise asiática indicou: “Comprei dois apartamentos durante a crise asiática. Tratou-se de um investimento sério, porque não tinha muito dinheiro na altura, mas achei que valia a pensa arriscar. Quando a crise acabou, vendi um e paguei os dois de uma só vez!”. Fez negócio.