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| Mundial de Xadrez | 4,5 a 1,5 para o xadrezista indiano com seis partidas disputadas | | Anand encosta Kramnik às cordas |
| João Valle Roxo -- | |
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“Em estado de choque” tem sido a expressão mais lida nos meios de comunicação social russos, quando se referem ao inesperado descalabro do ex-campeão do mundo Vladimir Kramnik, russo, durante o match que o coloca frente ao actual campeão mundial, o indiano Vishwanathan Anand, onde este coloca o seu título em jogo. Efectivamente, realizadas que estão, em Bona, Alemanha, exactamente 6 partidas das doze que compõem o match, o resultado é já de 4,5 - 1,5 a favor de Anand, fruto de três empates, três vitórias e zero derrotas para o indiano.
Como explicar isto? Previa-se um match disputado palmo a palmo entre aqueles que presentemente são considerados os dois melhores jogadores do mundo. Ambos se prepararam arduamente e desde há vários meses exclusivamente para este embate. Ambos são jogadores com nervos de aço, talvez até mesmo Kramnik seja mais forte psicologicamente. Com efeito, Kramnik conseguiu arrebatar a coroa a Kasparov em 2000 e, em 2006, resistiu a uma guerra psicológica sem quartel (o famoso caso “Toilettegate”), no limiar do eticamente aceitável, quando defrontou Topalov colocando o então seu título mundial em jogo. Ali, resistiu e venceu. No entanto, surpreendentemente, em Bona, Kramnink está a ser verdadeiramente siderado pelo actual campeão mundial.
Como é isto possível? É verdade que Anand tem jogado de forma irrepreensível mas a explicação está a montante: na estratégia de abordagem do match.
Recuando um pouco. Quando em Outubro de 2000, em Londres, o jovem Kramnik se sentou em frente a um dos melhores de sempre, o então campeão do mundo Garri Kasparov, para a primeira partida das 16 em que consistia a disputa do título mundial, ninguém apostava nele para vencedor. Mas Kramnik ganhou. Como? Estratégia de abordagem do match: “Ele fez o trabalho de casa e tomou de imediato a iniciativa. Demoliu a minha defesa principal com as peças traseiras logo ao segundo jogo. Para os seus jogos com as pretas, Kramnik concebeu um conceito brilhante, usando uma defesa antiga e algo impopular que sabia que tiraria partido das minhas fraquezas”, Kasparov, in How life imitates chess.
Desta vez, foi Anand quem levou na manga a estratégia correcta e a soube impor. Se bem se recordam do quadro comparativo que veio no meu artigo anterior (Hoje Macau, edição de 15/10/2008), os pontos fortes de Kramnik são os finais de partida e o jogo posicional. Ele é um purista, um classicista. Por seu turno, os pontos fortes de Anand são o jogo táctico e combinatório, o ataque e as posições agudas. Assim, era preciso levar Kramnik para essas areias movediças onde Anand está no seu elemento natural.
O que Anand preparou para este match foram variantes que saíssem dos cânones, que fizessem a partida entrar na fase do meio-jogo o mais cedo possível e ali ficasse decidida. Por outras palavras, partidas com pouca teoria de aberturas e que não se prolongassem muito, evitando-se chegar aos finais de partida. Normalmente, a fase de abertura perdura do início até entre 15 a 25 lances e aí fica melhor o jogador que conhecer mais teoria. A fase do meio jogo começa quando se sai da teoria e acaba quando se entra nos finais de partida, a qual é uma fase eminentemente técnica e que aparece quando apenas se encontra no tabuleiro um reduzido número de peças e peões (normalmente a partir dos 40-45 lances). O ataque e a táctica têm o seu campo de excelência no meio jogo.
Ora, até agora, o número de lances das seis partidas situam-se entre um mínimo de 29 e um máximo de 47 lances. Assim, podemos dizer que, até ao momento, ¾ das partidas foram “meio-jogo” e nunca chegaram à fase dos “finais de partida”. Além do mais, as três vitórias de Anand aconteceram quando ele saiu dos trilhos conhecidos das aberturas logo por volta dos lances 9 a 12, pelo que a fase de abertura terá consumido ¼ apenas dos jogos. Acrescente-se, ainda, que com excepção da primeira partida, todas as demais foram disputadas nas águas da “Táctica”, o elemento de Anand.
Vejam-se as posições logo após a abertura, ou seja, logo após a delineação do campo de batalha, das três partidas ganhas por Anand (diagramas 1, 2 e 3).
Aquilo que salta à vista é que as peças conduzidas por Anand se mobilizam muito rapidamente para um ataque, desvalorizando o facto de o Rei adversário estar bem protegido enquanto que o seu próprio Rei está no centro, pouco seguro. Privilegia-se a mobilidade e a rapidez em detrito da segurança; assumem-se riscos mas criam-se riscos, ou seja, são posições “à double tranchant”, dinâmicas, perigosas para ambos. E neste tipo de jogo é Anand quem está mais no seu elemento natural.
Conseguirá Kramnik, inverter a situação e levar as partidas para o tipo de jogo onde é mais forte? Creio que, se o conseguir, é capaz de já ser tarde de mais, mas veremos. Espero estar enganado para assim ainda podermos assistir a uma segunda metade do match com a incerteza do desfecho.
Entretanto, fica aqui a promessa para segunda-feira, de publicação da análise da primeira vitória de Anand, que aconteceu na partida 3, juntamente com a evolução do match até lá. |
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