Director: Carlos Morais José
 

--- 29-08-2008 ---
Maratona






Maratona

Bem se compreenderá, e muito melhor quem não pode deixar de se envolver pela proximidade, o fenómeno dos Jogos Olímpicos, embora prefira encará-lo, na precisa acepção de Thomas Friedman, como um snapshot, um instantâneo da realidade, que não se esgota no estrito calendário desportivo. Prossegue em réplicas tanto mais vivas quanto a predominância ou notoriedade do aspecto de eleição de cada observador.
Abundam os que relevam a competição, a encenação, aspectos dos direitos humanos, ou ambientais, ou de ética desportiva, marketing político, aggiornamento infra-estrutural, mitologia olímpica, ou outro qualquer.
Optaríamos aqui por um exemplo, um pretexto de actualidade, para apresentar uma leitura do momento político local. Na galeria dos heróis desportivos consagrados nestes Jogos de Verão, destacaríamos um ‘modesto’ Medalha de Bronze. O maratonista etíope Tsegay Kebed ficou na retina porque, apesar de ter cumprido, como o queniano de Ouro, os mesmos 42 quilómetros, e mesmo sabendo que não poderia chegar ao lugar mais alto do pódio, fez a derradeira volta ao estádio como se fora um sprinter de 400 metros. Impressionante.

A RAEM também está ensaiando os seus 400 metros. Depois de um natural suspense, demasiado longo, porventura, associado ao processo Ao, o Governo de Macau dispõe de um tempo limitado para acelerar alguns dossiês, clarificar outros tantos, encetar alguns. Nos mais diferentes domínios, como por exemplo, as políticas sociais, designadamente, o complexo laboral, que persistirá diminuído de uma lei sindical, a elevação institucional do ambiente, o pacote concessionado de utilities, um compacto legislativo ambicioso mas irreversível e inadiável, como o do artigo 23, e um ponto de ordem simultaneamente particular e geral em todos os aspectos da indústria dominante em Macau.
Nesta última área, como em outras, afinal, tem sido possível seguir mais ou menos tranquilamente ao som do ritmo, da melodia e da muito sui generis harmonia da música local. Poderíamos apontar as suas múltiplas características que um não-iniciado continuará com as mesmas dificuldades de percepção. Contraditório limitado, imunidade ao desmentido, alusões vagas, princípios indefinidos, possibilidade de revisão iminente.
Veja-se que, como se diz, já não dá para dulcificar a realidade, com o contributo voluntário e involuntário das gentes, que uma simples análise do austero Financial Times rasura as leituras vesgas. Como também não dá para, por motivos muitas vezes remotamente tangentes à indústria, criar dificuldades artificiais a um concessionário, no caso a Venetian, que enterrou, ou vai enterrar, passe a expressão, 40 biliões na Região Administrativa Especial de Macau. Como também se diz...não compliquem e deixem correr os 400 metros.

Por outro lado, no campo político-associativo, e recorrendo às mesmas metáforas de velocidade, os diferentes grupos preparam-se para provas de velocidade e de meio-fundo. A Associação do Novo Macau Democrático, em resultado de ter tomado a iniciativa sobre a limitação da importação de trabalhadores, segmentação, proporcionalidade e outras variantes de contingentação, aparentemente sucedeu em provocar algumas fissuras no composto tradicional: operários versus empresários. (Veja-se na edição de ontem do HM as declarações da presidente da AGOM e do empresário nomeado Jackson Tsui).
O sector democrata, por vezes, dito liberal, parece preparar-se para um sprint curto, entre o apuramento e avaliação dos resultados das legislativas da Região Administrativa Especial de Hong Kong - 7 de Setembro - e uma peregrina convenção da ANMD, no dia 20 de Setembro. Seguindo-se um percurso a meio-fundo até às cruciais legislativas de, provavelmente, 20 de Setembro de 2009, de onde sairá o hemiciclo que vai acompanhar o primeiro mandato do segundo Chefe do Executivo.
Deve notar-se que, desta vez, a ANMD terá surpreendido o composto tradicional. Paul Chan, o novo presidente dos democratas, tinha ‘convidado’, em Julho, os grupos tradicionais ou conservadores, conhecidos por pró-Pequim, uma designação com algo de potencialmente perverso na semântica política e constitucional, mas é a força do hábito, a fazer um upgrade ideológico e organizacional.
Afinal, não era um convite cínico, mas um bluff bem executado. E aí estará, quem acreditaria há uns meses, uma associação cívica e política reunida pela primeira vez, na RAEM, em ‘convenção’.

PS 1: O declínio da economia americana e a pré-recessão europeia, e mais a alta do crude, terão já empurrado o crescimento das exportações da China dos 12 para os 10%, nos últimos 18 meses. Parece pouca coisa, pois, mas Wei Gu, escrevendo no HT, lembra que o ‘senso comum’ considera que uma taxa de crescimento anual das exportações abaixo dos 8%, na China, representa uma recessão. Com perda de postos de trabalho e instabilidade social. Para conter esta tendência, a China poderá enveredar por medidas de protecção ou estímulo das exportações, ou, recomenda este analista, incrementar o investimento e estimular a procura interna.
Obviamente, a eleição do próximo presidente norte-americano é seguida com muita atenção. Por banda do ticket ‘Obinden’ ouve-se dizer que os EUA não podem, citando, continuar a pagar as importações à China e pedir esse dinheiro ‘emprestado’para ir pagar o petróleo aos sauditas. Por banda do ‘velho’ McCain é como dantes. Bom... é preciso mudar...!

PS2: Para encerrar esta estação olímpica, no que apenas diz respeito a Portugal, gostaria de expressar que ainda mais penosa do que a lusitana lamúria, ou a alarvice como zona de conforto, é aquela pequenez insuportável dos escribas que descobrem que os medalhas de ouro têm uma ligação a Portugal. Como diz um compagnon de route, M. Galvão, esta ligação ainda não foi descoberta, mas saber-se-á que Michael Phelps tem uma parente nas Ilhas, ou que antes da prova dos 200 metros cumprimentou um português chamado Silva. Ou que antes de entrar na estafeta comeu um energético pastel de nata.