Director: Carlos Morais José
 

--- 30-04-2010 ---
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Clima pesado para o Dia do Trabalhador

Tensão na Almeida Ribeiro

Pelo menos cinco grupos de indivíduos e associações apresentaram pedidos de autorização para marchar para a sede do Governo no sábado à tarde, mas a PSP determinou que se reunissem em diferentes lugares e nenhum foi autorizado a marchar pelas avenidas Horta e Costa ou Almeida Ribeiro. Três grupos de organizadores, incluindo os maiores activistas dos direitos laborais e os jovens "contra o silêncio", insistiram nos seus próprios planos de protesto. O deputado da AL Au Kam San disse estar preparado para grandes confrontos.

Kahon Chan



Um tiro para o ar no 1.º de Maio de 2007 em Macau teve eco além fronteiras. Mas os protestos do Dia do Trabalhador em Macau foram bem mais calmos nos últimos dois anos da administração de Edmund Ho, que começou a distribuir cheques anualmente a todos os residentes desde o Verão de 2008 para repartir o "excedente do Governo". Como todos os residentes vão receber dinheiro outra vez este ano do Governo Chui, além das 10 mil patacas a ser depositadas nas "contas de poupança central", irá o tempo abrir para este sábado?
A dinamite está no ar. O estado de ânimo desesperado dos candidatos locais a emprego no sector da construção foi bem traduzido em acção quando as câmaras de televisão capturaram centenas de trabalhadores a empurrarem as vedações das obras da ambiciosa mega-estância da Galaxy e a atropelarem-se no meio da confusão na manhã de 20 de Março. Gritaram por ajuda, perderam os sapatos no meio da confusao e confrontaram o pessoal dos recursos humanos da Galaxy por não perceberem porque é que os formulários de inscrição estavam a ser recolhidos em grandes sacos de lixo. Acabaram na semana seguinte, mais calmos, por submeterem a uma sessão de entrevistas coordenada pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) e acompanhada de perto pelo olhar atento da imprensa.
A ira colectiva foi reforçada por confrontos no exterior da sede da DSAL. Nenhum jornalista previa que um protesto matinal agendado para um dia de trabalho (12 de Abril) pudesse degenerar num confronto de uma hora, seguido de um acampamento de três dias em frente ao edifício da DSAL antes de o director do gabinete concordar em organizar uma reunião de três horas. A consequência directa dessa reunião foi uma ronda extraordinária de registo dos trabalhadores da construção desempregados e subsídios do Governo, seguidos do compromisso assumido pelo secretário Francis Tam de lançar rácios local/imigrante nas atribuições de quotas de trabalho e regulamentação para permitir a intervenção governamental em despedimentos colectivos de trabalhadores não-residentes.
A inspecção da DSAL aos dormitórios dos trabalhadores e acções de contagem de cabeças podem ter evidenciado falhas aos olhos do público, mas a verdade é que os problemas estão agora à vista de todos e Shuen Ka Hung, director da DSAL, também admitiu que não era capaz de apresentar soluções mais inteligentes. Todos esses encontros, anúncios e constrangimentos tiveram lugar nas duas semanas que antecederam o grande dia. A pergunta que fica: será que a violência resulta?
Uma vez que o mesmo grupo de trabalhadores que se envolveu em confrontos com os agentes da PSP a 12 de Abril também irá marchar em direcção à sede do Governo (ver tabela) no Dia do Trabalhador, o medo de actos violentos tem crescido aos olhos de Au Kam San, deputado da AL, da Associação Novo Macau.
"Este ano é altamente arriscado. Com base em encontros na linha da frente com o público em geral, o descontentamento sentido na comunidade é mais substancial do que nunca", afirmou. "A modalidade de protesto tem-se mantido todos os anos, sem que nada acontecesse depois que os manifestantes se dispersam em frente à sede do Governo. Mas eles agora querem efeitos instantâneos. Pelo menos alguma acção deverá ser ensaiada para mandar a mensagem ao Governo Central e exercer pressão sobre o Executivo de Macau. Qualquer faísca pode desencadear uma explosão."
Lee Sio Kuan, director-geral da Associação Unida pelo Poder de Subsistência dos Trabalhadores, tem trabalhado afincadamente nas últimas semanas na organização destes protesto. A proposta da associação sindical de que a marcha passasse na Avenida Almeida Ribeiro foi recusada pela PSP, mas ainda deverá haver negociações com os agentes no local para contornar a decisão. O responsável avisou que, se os agentes da polícia aparecerem com equipamento "esquisito" como escudos e cães polícias em tal situação, as pessoas podem ficar irritadas e a polícia será a única culpada pelas consequências. "Iremos tentar o nosso melhor para acalmar a multidão, mas as associações têm poucos membros [para controlar a situação]", afirmou. "Tem sido pacífico em muitas manifestações desde o Dia do Trabalhador de 2007. Os confrontos de 12 de Abril apenas aconteceu quando a polícia investiu com escudos sobre as pessoas. A polícia deve ser responsabilizada por tudo.
Au Kam San disse que os deputados da Associação Novo Macau também estarão presentes nos protestos para gerir os ânimos de ambos os lados se necessário, apesar do risco político de que dedos se levantem contra ele a acusá-lo de acender a ira dos manifestantes e desencadear distúrbios. A principal preocupação reside na passagem pela Almeida Ribeiro, que é "um emblema da cidade e se a polícia insiste em arredar dali os manifestantes como uma questão de dignidade, os trabalhadores consideram a interdição do acesso uma discriminação", afirma Au.
Num comunicado emitido ontem à noite, a PSP avisou que os participantes que não obedecerem à rota prevista e marcharem para fora dos locais de protesto aprovados pela polícia, serão considerados fora-da-lei. A PSP apelou aos manifestantes para se moverem de forma ligeira nas ruas, de forma a reduzir o impacte sobre os outros utilizadores da via pública e a seguirem a orientação da polícia durante o protesto.
Ng Sek Io, célebre activista dos direitos laborais em representação de uma associação sindical dos trabalhadores de projectos de casinos, foi excluído da lista da PSP. Ng revelou que chegou a ser considerado o apelo ao Tribunal de Última Instância, pondo em causa o respeito da PSP pela Lei Básica no que concerne à liberdade de reunião, caso a PSP resolvesse alterar o seu plano de protesto. Mas a PSP não conseguiu arranjar uma reunião a cinco dias do protesto pelo que o tempo disponível seria insuficiente para apresentar um recurso no tribunal. Ng resolveu por isso não se reunir com os agentes da PSP na quarta-feira passado, pelo que o protesto irá adiante de acordo com o plano da Associação Unida pelo Poder de Subsistência dos Trabalhadores.
Os jovens que defendem uma "sociedade livre do silêncio em nome da harmonia", ou "caranguejo de rio" (trocadilho cantonês com a palavra portuguesa "harmonia") não foram poupados às alternâncias da PSP, mas já avisaram as autoridades de que pretendem seguir em frente com o plano inicial começando a marcha na Alameda da Tranquilidade.
Wong, um dos muitos organizadores do protesto, considera que os percalços recentes com o Governo como o problema com o sistema de poupança central e os problemas financeiros da Viva Macau deixaram-no decepcionado, pelo que ele quer denunciar tudo através da manifestação porque a imprensa e os média convencionais em Macau terão falhado na escolha da coisa certa a dizer."
KK Lei, que liderou a tarefa de negociar com a PSP e resolver outros problemas da organização, disse esperar provar ao público que as pessoas jovens são diferentes dos trabalhadores de meia-idade, por serem mais racionais e pacíficos na exposição das suas reivindicações. "A cobertura mediática do nosso movimento tem superado as expectativas", disse. "Teríamos cumprido a nossa meta mesmo que a televisão da TDM ou o jornal 'Ou Mun' tivessem feito uma pequena cobertura sobre nós. Esperamos que a maioria dos jovens, que estão a observar as nossa acção e a hesitar, comecem a dar atenção ao nosso trabalho se formos bem sucedidos no protesto. Esperamos que a preocupação com as relações públicas seja despertada como consequência."